Parece existir uma espécie de purgatório indecisivo relativamente às particularidades e exigências durante esta conjuntura pandémica. Ao considerar o contexto pós-verdade, devido ao desgaste resultante na manipulação da opinião pública através das narrativas de desinformação, somos forçosamente confrontados com a fenomenologia fraturante que caracteriza a realidade coletiva. Se Kant expressou no passado que não víamos as coisas como elas são, mas sim como nós eramos, então no momento presente sugere-se a inclusão da ação disruptiva da internet de forma a complementar o aforismo, atualizando assim o diagnóstico.

A tendenciosidade institucional, as pressões corporativas, político/ideológicas e a constante poluição intelectual através de falácias comuns de apelo à autoridade (argumentum ad verecundiam) revelam uma acrescida adversidade já inerente no processo de destapar a verdade. Quando tentamos descortinar as reais motivações escondidas nas manifestadas intenções acabamos por regressar inelutavelmente à celebre questão de Pôncio Pilatos: “Quid est veritas?”

Infelizmente, nem o processo lógico saí ileso neste processo de acrobatismo mental, a ambiguidade relativamente à composição deste vírus, bem como a seriedade das medidas combativas por parte das autoridades competentes levantou um autêntico espetáculo surrealista. Muitas das situações que hoje estão devidamente salvaguardadas juridicamente, parecem ter sido retiradas de um filme do Luis Buñuel. Ninguém dotado de um temperamento cadenciado consegue propriamente acompanhar o ritmo desenfreado e a inventividade desta narrativa esforçada, presumo que já todos os argumentos tenham sido utilizados na tentativa de engrandecer este terror existencial, desde comparações à gripe espanhola aos infetados sem sintomatologia, desde a máscara como falsa sensação de segurança até à sua obrigatoriedade nos convívios familiares. Como se não bastasse a intranquilidade proveniente de semelhante titubeação ainda se assiste a uma rejeição perentória de vozes dissidentes na análise deste problema que teoricamente nos afeta a todos, sejam dúvidas relativamente legítimas sobre a falibilidade do teste PCR na deteção do vírus ou perguntas sobre a eficácia de tão restritivas medidas, interrogações como estas são prontamente repudiadas ou rotuladas como questões inflamatórias ou desprovidas de honestidade. Sem dúvida que se formos ao médico com uma gripe e nos for recomendado o suicídio para a curar, o problema ficaria resolvido, ninguém ousa questionar isso, porém temos de debater a praticabilidade de intervalar suspensões na economia, a destruição do pequeno comércio e setores estratégicos, mais concretamente a hotelaria e restauração, bem como os aspetos individuais de saúde, nomeadamente outras patologias que estão a ser negligenciadas e outros aspetos psicológicos potencialmente traumáticos a que as pessoas estão a ser sujeitas devido a esta engenharia social descarada. A lista de consequências nefastas consegue ser verdadeiramente infindável, até casos caricatos como a suspensão de um aluno de um infantário por ter tido o “descaramento” de partilhar o seu lanche com um colega. Pessoas facilmente recorrem à agressão se eventualmente alguém se recusar a usar uma máscara, declarou-se um estado de emergência, mas pode-se contrariar o recolher obrigatório se eventualmente formos assistir a um concerto, já para não falar da absoluta incongruência na aplicabilidade das medidas, quem renova a sua máscara facial na periodicidade indicada que atire a primeira pedra! Enfim, aquilo que hoje estamos a viver é absolutamente kafkiano, não é muito diferente de ser processado devido a uma ofensa gravíssima e não saber que ofensa foi essa e em que é que consiste tal processo.

A situação atual assume paralelismos tão novelescos que recentemente relembrei outra imponente obra literária, nomeadamente os Irmãos Karamazov de Fyodor Dostoievsky, mais concretamente o relato poético que Ivan conta ao seu idealista irmão Aliocha no qual o Cardeal da Santa Igreja se depara com Jesus Cristo reencarnado em Sevilha – episódio literário conhecido como “O grande Inquisidor”.

O Grande Inquisidor retrata a angústia do ser humano face o livre-arbítrio e o sofrimento, nessa passagem, a aparição de Jesus Cristo na Espanha do século XVI provoca a reação rápida do Grande Inquisidor de Sevilha que mesmo ciente de quem era, resolve prendê-lo. O cardeal inquisidor aproveita para desafiar Jesus Cristo, acusando-o pelos males do mundo.

É noite quando o Inquisidor visita o seu prisioneiro e quer se certificar, perguntando:

– É você? É você mesmo? – Cristo permanece mudo. – É melhor você se calar! – E o Inquisidor assim prossegue, repetindo-se: – Porquê? Por que você veio nos importunar?

É esta a pergunta estranha e enigmática, que o próprio Inquisidor trata de responder num monólogo que talvez constitua uma das peças literárias mais profundas e perturbadoras do pensamento político ocidental.

 – Você volta quando nós, da Igreja, finalmente consertamos o seu erro. Precisamos de 15 séculos para tapar essa brecha, para fechar o abismo que você abriu aquando a sua primeira vinda (…) Saiba que mandarei queimá-lo amanhã como o pior dos hereges, e esse povo que hoje beijou os seus pés e cobriu-o de flores amanhã colocará brasa e mais brasa para que o fogo queime mais forte e rápido.

Mas qual foi esse erro monstruoso?

– Lembre-se – diz então o Inquisidor – do famoso dia das três tentações do Diabo…

Revela-se, portanto, necessário mencionar tais tentações.

Depois de jejuar durante 40 dias no deserto, o Diabo sugere a Cristo que use os seus poderes para transformar pedras em pães, ao que Cristo responde que o homem não se alimenta só de pão.

Cristo está em cima de um templo quando o Diabo sugere que se atire, já que, sendo filho de Deus, os anjos o carregariam.

Enfim, Cristo está no cume de uma alta montanha quando o Diabo lhe mostra o conjunto dos reinos do mundo, dizendo-lhe que são todos dele, ao que Cristo responde que adora apenas Deus.

O pão obviamente corresponde à questão dos bens materiais, da economia. Já o salto no vazio é mais difícil de interpretar. Correntemente, ele é associado à questão do mistério. Pode-se, contudo, ir além, ao notar que o desejo do Diabo é que Cristo verifique se é de fato filho de Deus. A verificação, ora, é um expediente científico; logo, o que há é a questão científica. A terceira tentação trata, claro, da dominação e coação política.

Daí infere-se que se Cristo tivesse multiplicado os pães, provado ser filho de Deus ou aceitado o Império Universal, ele teria imediatamente obtido do homem uma crença servil, passiva, cega, e o que ele desejava era ser adorado livre e responsavelmente. Aos olhos do Inquisidor, algo de que o povo seria incapaz, já que era “fraco, covarde, desprevenido”. Por isso é que existe esta intrínseca necessidade de alguém que lhe diga como ganhar o pão, o que é verdadeiro e falso, e a quem obedecer.

Eis por que reler as tentações e mostrar como cada uma delas define um registo específico de crenças que o Inquisidor precisou instaurar, nomeadamente: a crença económica, científica e a política.

Com a primeira rejeição – explica o Inquisidor –, Cristo teria privado o povo de uma fonte de felicidade e segurança, isto é, a gratidão que o escravo sente pelo mestre que o alimenta, pois, com isso, não haveria rivalidades e lutas pela divisão das riquezas produzidas pelo homem. Acontece que ceder a isso corresponderia a negar a este a compreensão de justiça.

Com a segunda rejeição – explica ainda o Inquisidor –, Cristo teria privado o homem de uma prova objetiva da sua filiação. Ao negar-se a desempenhar o papel de “guardião das consciências”, ele não poupou à Igreja o trabalho de discernir, para o povo, o verdadeiro do falso, já que – ao contrário do que Cristo supõe – as pessoas são incapazes de verificar por elas mesmas suas crenças.

Em última análise a tentação exercida pelo poder. Ao recusá-lo – explica, por fim, o Inquisidor –, Cristo teria condenado o homem à solidão, já que ele só é capaz de unir-se na submissão. Caso contrário, o que haveria na Terra seria um reino de paz e segurança definitiva e imperturbável.

A razão pela qual entendi uma preponderância maior nesta reminiscência literária episódica deve-se precisamente ao contexto “religioso” que se depreende atualmente. Entender toda a situação envolvente da pandemia como um simulacro religioso que obedece a uma estrutura de narrativa messiânica semelhante à da rejeição das tentações afigura-se como um exercício assustadoramente válido, pois estes três momentos alegóricos correspondem devidamente a três inquietações correntes:

  • Milagre – Vacina
  • Mistério – Covid
  • Autoridade – Lockdowns

Ao consultar o trabalho do psicanalista Jacques Lacan sobre repressão, imediatamente nos é apresentada a relação entre o significante e o significado, bem como a preponderância da metáfora na compreensão da profundidade implícita no que se comunica superficialmente, logo utilizando estas ferramentas de linguística estrutural conseguimos compreender como esta conjuntura está a aceder a uma “framework” mais profunda do que aparenta. Ou seja, a controvérsia relacionada com o Covid 19 não precisa necessariamente de ser lógica ou de fazer sentido, pois começa a definir o seu posicionamento no território da fé, ocorrendo assim um preenchimento desse vazio consequente do ateísmo secular que tem vindo a caracterizar o ocidente. Por isso é que propositadamente se verifica esta promiscuidade frásica no slogan panfletário “acreditem na ciência” quando a ciência não permite dizer “eu creio”, mas sim “eu sei”, atendendo ao facto de que a atividade científica principia a sua metodologia no principio de falseabilidade (experimentação e validação). Em suma, é legítimo deduzir que dialogar sobre as especificidades que gravitam a entidade “Covid 19” transcende o domínio lógico e mesmo o emocional, sendo fundamentalmente semelhante ao ato de conversar sobre práticas e condutas ritualistas. Estas medidas “musculadas” impostas por numerosos governos parecem cumprir uma espécie de liturgia estatal, uma espécie de criação de um novo regente temporal A.C. e D.C. (antes covid e depois covid), sendo que esta operação na dimensão tempo legitima eventuais alterações estruturais e sistémicas.

E é precisamente nestas alterações paradigmáticas que devemos encadear novamente a discussão no capitular “great reset”, pois como o próprio Klaus Schwab afirmou:


Afirmação de Klaus Schwab

Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum económico mundial, acredita que a Covid-19 significa “uma segunda oportunidade para acertar as coisas”. Mesmo considerando que a pandemia esteja a expor problemas como o aprofundamento na desigualdade entre ricos e pobres, acesso a cuidados de saúde e insegurança no emprego, Schawb diz que a conjuntura atual revela também, de uma forma sem precedentes, que “o mundo pode agir em conjunto e rapidamente por um bem maior”. Daí a utilização dessa palavra reset (redefinição), precisamente pela alegada necessidade de uma reforma do sistema internacional de forma a integras as “novas dimensões do comércio global”.

Schawb não só afirmou esta necessidade como escreveu um livro, juntamente Thierry Malleret, fundador do Monthly Barometer, que pretende explorar as principais causas da crise que estamos a viver e os motivos subjacentes à necessidade de se fazer uma “grande redefinição” no mundo pós-covid , sob pena de, e se esta não for feita, “exacerbar o risco de choques violentos”, como a explosão de conflitos e revoluções de ordem variada. Este “Great Reset” não é apenas um livro, mas também uma iniciativa lançada pelo próprio FEM, assente numa plataforma colaborativa, e será, também, a temática em discussão na habitual reunião anual de líderes mundiais em Davos em 2021.

O livro, que pode ser encarado como uma análise económica, mas também orientado para as políticas públicas, é o primeiro do género, sendo publicado no pico da crise mundial da Covid-19, supostamente o principal objetivo do livro é “ajudar-nos” a compreender o que está para vir, mesmo com todas as incertezas que caracterizam o futuro, e conta com três grandes capítulos que oferecem uma visão panorâmica do ambiente vindouro: o primeiro aborda o impacto da pandemia em cinco categorias macro, a nível económico, societal, geopolítico, ambiental e tecnológico; o segundo considera os efeitos do mesmo em termos “micro”, tendo em conta os impactos em indústrias e empresas específicas e o terceiro vaticina sobre a natureza das consequências possíveis a nível individual. A principal mensagem partilhada pelos autores é a de que a crise sanitária global tem vindo “a ampliar as complexas falhas que já assolam as nossas economias e sociedade”, registando igualmente a existência de uma multiplicidade de inquéritos que têm mostrado “muitos desejos colectivos de mudança”. Mas como avançar para essa mudança?

Pois bem, tantos eufemismos e palavras virtuosas a fazer lembrar o aforismo clarividente de Albert Camus “O bem comum sempre será o alibi da tirania”, até um reset financeiro está a ser trazido para o consciente público, algo que pode implicar o fim do sistema fiduciário.


Notícia no site Bitcoin.com

Mais uma vez me lembro do Dostoievski e do seu grande inquisidor que condenou Jesus Cristo reincarnado em Sevilha, de facto parece que o livre arbítrio para discernir foi a janela da alma por onde entrou o que está para vir, pois a nova economia irá dissimular o milagre, a nova ciência irá explicar o mistério e o novo governo irá exercer a autoridade.

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