Confesso ser um ávido colecionador de preciosidades frásicas, desde aforismos sentenciosos a adágios populares, tento sempre depreender a intrínseca sabedoria bem como convidar a reflexão morosa e atenta na codificação metafórica. No entanto, a frase que auxilia o título deste artigo não é necessariamente uma destas relíquias, pois afigura-se como uma expressão incomparavelmente banal, preferencialmente utilizada quando o seu detentor tenta justificar a sua discórdia num assunto entendido pela maioria como algo consensual. Apesar da sua aparente trivialidade não se deve descartar a cogitação inerente onde esta afirmação está enraizada, existem sistemas complexos abstraídos nestas afirmações e muitas vezes desconsideramos os significados das palavras com falaciosas arbitrariedades na linguagem.

É incrivelmente impressionante esta expressão em particular ser tão comum e popular quando se revela filosoficamente tão problemática, vindicar originalidade na reflexão enquanto se experimenta a realidade é precisamente um dos problemas ontológicos que se afigura praticamente indecifrável. Se eventualmente o homem conseguisse escapar da dualidade que relaciona mente e matéria então talvez conseguisse analisar com engenhosidade a realidade, mas infelizmente o homem é humano até no pensamento, e se pensar consolida a sua existência numa perspetiva cartesiana, então o facto de ser humano limita a experiência. Ou seja, esta afirmação concludente apesar de sonante é ausente de dimensão literal, pois o significado codificado nesta assertividade é revelar a disposição investigativa e curiosa que impede a total desresponsabilização na reflexão por parte de quem a utiliza, logo o que se pretende comunicar é a disponibilidade de recursos, fontes, metodologia e procedimentos para desenvolver conclusões (naturalmente que pode sempre derivar da genuína sensação de ineditismo, porém tal sensação só ocorre devido a uma desconsideração de fatores externos e intencional ignorância de pressões e influências socio/culturais).

A dificuldade de isolar e responsabilizar exclusivamente a reflexão e posterior conclusão é tão impossível quanto desnecessária, pois como John Donne colocou poeticamente:

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

É nesta condição de inevitável sociabilidade e integração cultural que a existência se manifesta. A herança individual, por isso, é também uma pertença coletiva e é evidente que a sua organização irá impactar os mecanismos percecionais do indivíduo, pois ele não pode simplesmente pensar mantendo a experiência pendente, ele forçosamente tem de refletir sobre o mundo enquanto participa nele.

De certa forma é absolutamente essencial para a nossa sobrevivência não ter de pensar somente pela própria cabeça e é este facto interessante que ocorre quando o significado metafórico de uma frase contraria o significado literal da mesma que merece uma análise cuidada, pois este território ambíguo é o mesmo onde se posicionam os dogmas do “senso comum”.  Quem souber manipular aqui saberá orientar invisivelmente uma coletividade, numa espécie de reinvenção da célebre citação de Arquimedes:

“Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei o mundo

O final século XX foi profundamente marcado pelo movimento pós-modernista e um dos alvos comuns da crítica pós-moderna foi precisamente a linguagem. Porém, antes de analisar concretamente o que acrescentou e subtraiu este amplo movimento, talvez seja relevante introduzir um pensador que se antecipou neste conflituoso divórcio entre as palavras e os seus significados, nomeadamente Martin Heidegger.

O primeiro livro que o filósofo alemão escreveu em 1927 – “Sein und Zeit” (ser e tempo) constituiu o seu trabalho mais influente e mesmo não o tendo terminado apresenta-se como uma das obras filosóficas centrais do século XX. A intencionalidade do autor é fazer regressar uma das questões mais antigas da filosofia, nomeadamente a questão do ser. Heidegger pertinentemente salientou que na herança helénica sempre se identificou o “ser” com a presença no mundo. Assim, segundo tal tradição, “ser” era estar presente no mundo e “não ser” era não estar presente no mundo. Segundo Heidegger, isto é um erro, porque, se se entende por “presença” a possibilidade de se ocupar um lugar no espaço e no tempo, então pode-se atribuir esta definição de “ser” para o ser dos objetos materiais, por exemplo, de mesas e cadeiras, realçando a diferenciação descurada que separa “ser” e “ente” (entidade). Todavia, praticamente toda a filosofia ocidental tinha sido erguida numa definição imprecisa nesta questão ontológica, sem que alguém tivesse considerado preponderante averiguar os pilares do edifício. Heidegger foi revolucionário, precisamente por se servir da fenomenologia teorizada pelo seu mentor Edmund Husserl para investigar estes alicerces desatendidos e forçosamente constatou a necessidade de estudar com afinco a origem das palavras, chegando mesmo a inventar vocabulário, pois não havia conceitos a nomear as suas conclusões.

Martin Heidegger

O ato de inventar palavras não era uma vaidade intelectual, mas sim uma consequência inerente dos procedimentos inquisitivos que o filosofo assumiu. Ninguém antes dele tinha saído do invólucro que circundava o pensamento ocidental, logo não havia vocabulário apropriado para ilustrar as conceções inferidas, ou seja, isto era literalmente pensar fora da caixa, ou ainda melhor, isto era literalmente pensar pela própria cabeça. O termo centralizador na sua filosofia é o Dasein – palavra que não conhece tradução apropriada para português – este conceito de certa forma pretende nomear a dificuldade existencial que sucintamente analisamos anteriormente. Heidegger afirma que o ser humano é um “ente destacado”: o ser humano é capaz de questionar o “ser”, possui uma compreensão do “ser”. Este “ente” é o homem, que Heidegger chama de “ser-aí” (talvez a maior aproximação deste termo na nossa língua), o homem enquanto um “ente” que existe imediatamente no mundo.

A referência deste nome sonante do pensamento humano serve para exemplificar a cumplicidade imediata da reflexão com o vocabulário, sendo a linguagem a principal estrutura da reflexão. Uma evidência tão grande que se assemelha ao ar que respiramos na medida que também ela é tomada como garantia. Esta observação, após ter sido exteriorizada, fez-me recordar o livro “this is water” do David Foster e o episódio específico em que os peixes revelam não saber o que é a água.

This is water by David Foster Wallace

Podemos agora regressar ao contexto pós-moderno, com estas noções brevemente apresentadas, de forma a compreender melhor este fenómeno cultural e intelectual. Segundo o francês Jean-François Lyotard, na corrente filosófica do pós-estruturalismo a “condição pós-moderna” caracteriza-se pelo fim das metanarrativas. Considerou-se que os grandes esquemas explicativos haviam sido desacreditados não havendo por isso as antecedentes “garantias”, sendo que mesmo a ciência já não poderia ser considerada como uma fonte da verdade.

Contudo, antes de exploramos este conceito de metanarrativa, revela-se importante descrever sucintamente o que é o estruturalismo e o momento posterior que referimos. O estruturalismo foi um movimento intelectual desenvolvido na Europa na primeira metade do século XX, que defendia que a cultura humana podia ser entendida através da estrutura – modelada pela linguagem – que diferencia a realidade concreta da abstração das ideias.

Um dos pioneiros da psicologia, o médico, filósofo e psicólogo alemão Wilhelm Wundt é considerado também o precursor do método estruturalista na psicologia. Wundt passou a trabalhar com a chamada psicologia experimental, realizando um extenso trabalho laboratorial na tentativa de descobrir novos modelos de interpretação psicológica. A tese de Wundt que o levou a desenvolver o método estruturalista, estava baseada na ideia de que há uma estrutura geral da mente humana, que, indiferente às mudanças subjetivas de cada indivíduo, compunha uma espécie de estrutura geral da mente subjacente a qualquer ser humano. Inferiu assim, que a tarefa do psicólogo ao recorrer ao método estruturalista era analisar o indivíduo como parte de um todo e tentar descobrir qual era a estrutura que compunha esse todo.

Wilhelm Wundt

Enquanto Wundt teorizou a existência de uma estrutura comum cognitiva e psicológica, o filósofo e linguista suíço Ferdinand Saussure foi o responsável por definir o método estruturalista com mais clareza. O campo de estudos de Saussure, a linguística, era dominado pelo estudo da língua baseado na historicidade da composição linguística. Para o linguista não havia uma historicidade essencial responsável pela linguagem, mas sim uma série de elementos estruturais básicos e elementares em todas as línguas. Segundo as suas ideias, a compreensão da linguística surgia através do entendimento dos signos linguísticos (elementos simbólicos singulares). Foi esta intencionalidade que justificou a fundação da semiologia, que seria uma vertente de estudo da linguística por meio dos signos e símbolos.

Ferdinand de Saussure

É aqui que se encaixa esta ideia de metanarrativa, precisamente por ser um termo que faz alusão simplificadamente à narrativa contida dentro ou além da própria narrativa, ou seja, uma ideia de pluralidade interpretativa estrutural ou sistémica que acrescenta significados além da compreensão literal. Cada vez mais se evidencia a dificuldade excruciante de conciliar autonomia pensante sem o domínio da linguagem e foi esta ideia de multiplicidade que foi violentada por Jaques Derrida, uma das figuras mais marcantes deste movimento, que curiosamente também inventou umas quantas palavras.

“Não há nada fora do texto” – Jaques Derrida

Derrida foi o principal artífice do desconstrucionismo que posicionou no estudo da fenomenologia, ou seja, dos fenómenos da existência e da consciência. Em 1967 escreveu “De la grammatologie”, servindo-se de uma postura crítica, envolvendo, na sua argumentação, nomes como Jean-Jacques Rousseau, Martin Heidegger, Edmund Husserl e o linguista Ferdinand de Saussure, por quem foi influenciado na sua perspetiva dos signos e dos significados desconstruídos. Nesta obra ele serve-se da postura desconstrucionista de forma a compreender a relação entre o texto e o significado, a partir das leituras que faz, procurando detetar o que se opõe aos seus significados e às estruturas. Comprova assim, que a linguagem e a sua utilização se revelam complexas e inconsistentes, perante a “différance” associada aos significados existentes, que o discurso, na sua desconstrução, acaba por desvelar.

Jacques Derrida

Das ontologias criadas e pensadas, Derrida é provavelmente o autor mais importante para se entender o que caracteriza a conjuntura filosófica do nosso século, precisamente pelo seu reducionismo barato para usos panfletários nas políticas identitárias e dialéticas de poder rudimentares. É tão perniciosa esta compreensão errónea do pós-modernismo que muitos pensadores contemporâneos a confundem com o termo: Marxismo cultural. Isto é um equívoco, mas existe uma legitimidade entendível para esta caracterização.

Para analisar esta consideração final temos de visitar um território abstrato vizinho da linguagem e que já referimos aqui, nomeadamente o senso comum e um dos pensadores marxistas mais influentes do movimento: Antonio Gramsci.

O intelectual italiano António Gramsci refletiu bastante sobre a impraticabilidade revolucionária a uma escala internacional e condenou veemente a postura letárgica dos comunistas tradicionais que simplesmente aguardavam pelo consumar da revolução profetizada por Engels e Marx. Segundo ele a revolução violenta que visava o desmoronar do status quo antagonizava com a sensibilidade comum e foi com essa dedução que ele se debruçou minuciosamente sobre a concetualização de hegemonia cultural.

A hegemonia cultural é, portanto, um conjunto de ideias dominantes de uma determinada conjuntura social, política, cultural e económica. Ela não é permanente, mas o Estado, e os seus líderes, representam o resultado desse somatório de forças em disputa. Neste contexto estão presentes a sociedade civil e a sociedade política. As duas influenciam-se mutuamente, e o governo é o resultado das ideias dominantes. O conceito de hegemonia, representa talvez a contribuição mais importante de Gramsci à teoria marxista, pois sublinha o conjunto das funções de domínio e direção exercido por uma classe social dominante, no decurso de um período, sobre outra classe social e até sobre o conjunto das classes presentes na sociedade. Sendo composta por duas funções: função de domínio e a função de direção intelectual e moral, ou função própria de hegemonia.

Antonio Gramsci

O conceito de hegemonia cultural, envolve sempre a relação entre o Estado, a sociedade civil, as formas materiais de produção e as estruturas ideológicas e jurídico-políticas. Este conceito envolve uma reflexão sobre o papel dos intelectuais, a cultura de massa e a indústria cultural, portanto, revela-se evidente que a função da escola seja muito debatida, pois é considerada como o elemento chave na concetualização de hegemonia cultural. Convém também ressalvar que o conceito também é utilizado para discutir sobre o papel da comunicação social nas sociedades contemporâneas, principalmente sobre o poder que exercem na produção de ideias e estilos de vida hegemónicos.

Ao relacionar a propriedade intelectual do Gramsci com as características definidoras do pós-modernismo (ceticismo relativamente ao logocentrismo, estruturas de poder, particularidades linguísticas etc), depreende-se uma conveniência parasitária do ímpeto subversivo que ilustra o marxismo. Denota-se uma simbiose horrorosa, semelhante a um cruzamento de espécies profundamente errado, capaz somente de gerar confusão, histeria, violência e destruição.

O ocidente está a ser academicamente vitimado por um tráfico intelectual sem precedentes, onde se ensina filosofia transvertida que não passa de uma doutrina subversiva e o mais lamentável desta situação toda é que aparentemente esta pedagogia perniciosa passa despercebida. Atrevo-me a dizer que muita gente só irá reparar nesta horrenda transformação quando alguém afirmar assertivamente que uma qualquer impensada barbaridade é uma questão de senso comum.

Não importa propriamente pensar pela própria cabeça, mais importante é quem convidas para entrar dentro dela.  

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[…] reitera e redefine o conceito de “Hegemonia Cultural” (conceito já brevemente explicado no artigo “Será que pensas pela própria cabeça”). Para Gramsci, a evolução da noção de hegemonia deveria transitar em conformidade com a […]