É totalmente compreensivo principiar a reflexão numa disposição cética quando se propõe uma teoria que diverge da interpretação consensual e lecionada, são as chamadas teorias de conspiração. Só o próprio termo acarreta uma imagética pejorativa suficientemente dissuasiva, transportando consigo a condenação, a ridicularização e a rejeição, pois precipita-se o raciocínio para determinadas personalidades exuberantes ou explicações inconcebíveis muitas vezes fundamentadas por arquiteturas secretas e esoterismos ininteligíveis. Estas teorias não se afiguram como territórios abstratos plausíveis quando confrontados com os quotidianos iterativos e muitas vezes monótonos dos indivíduos onde as angústias pessoais e tribulações profissionais imperam. Porém, se é legítimo uma postura cética face a estas conspirações também se revela legítimo e apropriado o mesmo ceticismo perante a outra face da moeda, nomeadamente as coincidências. 

Alguns autores já se debruçaram seriamente sobre este assunto, Robert Blaskiewicz, professor assistente de pensamento crítico da Universidade de Stockton após a sua investigação concluiu que o termo sempre foi detentor de um significado depreciativo, porém só era usado para descrever “hipóteses extremas” e especulações implausíveis (desde 1870). Já na propriedade intelectual de John Ayto, recorrendo à sua obra “Twentieth century words”, o termo “teoria da conspiração” era originalmente neutro e somente adquiriu uma conotação pejorativa em meados dos anos 1960, mas foi Lance DeHaven-Smith, professor na universidade da Flórida quem complementou a fundamentação desta caracterização com a afirmação que a expressão havia sido inventada nessa mesma década pela CIA para desacreditar as teorias conspiratórias sobre o assassinato do ex-presidente norte-americano John F. Kennedy.

Assistiu-se então a uma transformação no significado desta designação, uma inegável intencionalidade de poluição intelectual, pois entreter eventuais hipóteses extremas e especulativas desviantes passou a ser condenado veemente e até ridicularizado, uma espécie de bloqueador comportamental onde a terminologia metaforiza uma porta que quando atravessada origina coação imediata, não só do sujeito coletivo como do próprio sujeito individual por se sentir semelhante a um infrator ou a um louco.

Todavia, no domínio epistemológico também é irrefutável que no exercício pleno da liberdade de consciência e pensamento é permissível e até exigível que se possa mobilizar ilações e reflexões para onde elas quiserem navegar, é altamente pernicioso refrear raciocínios interiores ou limitar propositadamente a curiosidade quando ela se manifesta, pois agir desta maneira aquando o processo de reflexão (cogito) provoca uma espécie de sabotagem dissimulada, uma voz punitiva que se opõe e torna inacessível determinadas hipóteses. Tanto o evolucionismo como o relativismo geral num determinado momento foram hipóteses extremas e especulações implausíveis, felizmente serviram-se de uma cobertura experimental e teórica que as tornaram paradigmáticas, nomeadamente a ciência com os seus princípios:

  • metodologia comprovada: desenvolvimento e verificação durante um tempo suficiente para permitir a geração de todos os dados.
  • reprodutibilidade dos resultados: a repetição do mesmo processo gera os mesmos resultados. Provamos isso com validações.
  • abstração da realidade: através do uso de modelagem, entre outros.
  • apresentação dos resultados: de uma forma compreensível, para que os utilizadores possam encontrar e avaliar as informações de interesse. 

Acontece que os fenómenos socias, culturais e políticos não partilham deste cobertor caracterizado dos princípios de Falseabilidade, ou refutabilidade propostos por Karl Popper e aparentemente nem é permitida a exposição de motivações e propósitos alternativos para fundamentar ocorrências geopolíticas e económicas devido a esta ação coerciva, logo parece existir um monopólio relativamente à interpretação dos acontecimentos históricos, sendo o registo histórico uma disciplina relativamente frágil quando comparada com o registo cientifico. Para percebermos melhor Lance DeHaven-Smith e a sua responsabilização da CIA na disseminação deste termo, analisemos brevemente o assassinato de John F. Kennedy.

Uma semana depois do assassinato com um país ainda severamente abalado pela sequência trágica de eventos (inclusivamente o homicídio de Lee Harvey Oswald por Jack Ruby) o presidente Lyndon B. Johnson criou a Comissão Warren, que seria responsável pela investigação do caso. Em setembro de 1964, a Comissão publicou um relatório onde se havia concluído que os tiros eram proveniente da janela do 6º andar da “Texas School Book Depository”, onde ficava o depósito de uma livraria que ficava em frente à praça Dealy, onde passou a respetiva comitiva presidencial. No entanto, apesar das provas e ilações apresentadas pela Comissão, dois aspetos ainda permanecem alvos de controvérsias: o primeiro deles é sobre a constatação de que Lee Oswald tenha feito os disparos sozinhos, sendo que as evidências contrárias revelam que Harvey era um péssimo atirador. Outro aspeto ainda mais alarmante é o tempo de diferença entre cada disparo e a chamada Teoria da Bala Única, considerada pelos céticos que posteriormente viriam a ser chamados de “teóricos da conspiração” como a teoria da Bala Mágica.

Segundo a teoria, que foi explicada e devidamente ilustrada no filme JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (1991), realizado por Oliver Stone e protagonizado por Kevin Costner, a bala teria que: 1) penetrar as costas de Kennedy; 2) seguir uma trajetória de 17 graus e subir saindo do corpo de Kennedy pelo pescoço; 3) passado 1.6 segundos, a bala teria virado no ar à direita, depois a esquerda penetrando a axila direita de Conally; 4) a bala, então teria descido num ângulo de 27 graus, de forma partir a costela e a sair do lado direito do peito do governador; 5) virado à direita de forma a penetrar o seu pulso direito; 6) Quebrar o osso e saído pelo outro lado da mão; 7) para finalmente se alojar na coxa esquerda de Conally.

Cena do filme "JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar" que mostra a trajetória da bala mágica

Nesta teoria que viria a ser creditada e consumada a bala teria de atravessar 15 camadas de roupas, sete camadas de pele e aproximadamente 38 centímetros de tecido muscular, além de atingir um nó da gravata, ultrapassar 10 centímetros de costela e partir um osso do rádio. Porém o mais curioso é sem dúvida o facto de que mesmo após esta trajeto repleto de obstáculos a bala ter sido fotografada numa forma visivelmente pouco comprometida, para não dizer que estava praticamente intacta. 

Bala que teria atingido John Kennedy e John Conally

Como aparentemente fica evidenciado é mais fácil duvidar da teoria explicativa oficializada que aceitar a sua plausibilidade, mas foi precisamente a iniciativa de bloquear ilações divergentes que precipitou o frenesim imaginário sobre a respetiva identidade do assassino, bem como a eventual organização que possivelmente possa ter arquitetado semelhante homicídio. Sendo que ainda hoje se entretém a possibilidade de ter sido orquestrado pelo complexo industrial militar (devido à antecedente advertência do presidente Eisenhower). Havendo ainda atribuições à máfia, comunistas cubanos e outras sociedades secretas.

A verdade é que desde que foi criada em 1966, a Lei de Liberdade de Informação dos Estados Unidos prevê a liberação ao público de documentos oficiais classificados (confidenciais e secretos) com mais de 25 anos de idade. Os documentos são revistos e avaliados pelos Departamentos que os produziram de forma a permitir a sua transferência para o National Archives, que possui algumas bibliotecas abertas ao público. Esta lei foi desenvolvida precisamente pela pressionante transparência intrínseca numa governação democrática, de forma a não cometer um antagonismo conceptual. Um dos exemplos desta divulgação até foi devidamente aproveitada e exposta num registo documental sem precedentes, nomeadamente a série “Vietnam War” realizada por por Ken Burns e Lynn Novick que conta com mais de 18 horas de duração onde se pretende ir além dos bastidores da geopolítica da Casa Branca, demonstrados através de conversas gravadas e fotos desclassificadas. 

Existem ainda outros exemplos reveladores do esforço administrativo, não só nos EUA evidentemente, de transfigurar os acontecimentos distanciando as reais motivações e consequências de eventuais políticas e ocorrências, logo não pode ser levianamente descartada a possibilidade de uma determinada narrativa não ser correspondente à realidade efetiva. A legitimidade do ato sigiloso e confidencial é seguramente legítimo na conduta eficiente que caracteriza a administração de uma nação, esse é um dos motivos justificativos da inerente representatividade e liderança seletiva, porém também este comportamento exige uma posterioridade arquivística, possibilitando eventuais consultas tanto por investigadores como cidadãos. Esta previsão legal também se contempla no enquadramento legal português:

“Decreto-Lei n.º 47/2004

de 3 de Março

O Estado, especialmente através da administração central, bem como as demais entidades públicas e privadas têm o direito e o dever de preservar, organizar, defender e valorizar o património arquivístico nacional. Constituem o património arquivístico nacional os documentos, qualquer que seja a data, forma ou suporte material, produzidos ou recebidos por uma entidade pública ou privada no exercício da sua atividade. Inicialmente conservados a título de prova ou informação, esses documentos se considerados de valor permanente, decorrente da sua relevância jurídica, política, económica, social, cultural, religiosa ou científica, devem ser integrados em arquivos históricos para que possam ser utilizados pelos investigadores e pelos cidadãos em geral.”

No ano de 2002 o Primeiro Ministro inglês Tony Blair e o presidente dos EUA George Bush estavam empenhados e resolutos na convicção da perisosa ameaça para o mundo livre personificado em Saddam Hussein. Estavam tão determinados em encontrar fundamentação incriminatória relativamente às intenções do ditador iraquiano que o então chefe do MI-6, o serviço de inteligência britânico, assertou a Blair que havia conseguido acesso direto ao programa de armas químicas de destruição maciça de Hussein. Afirmou que a fonte confirmava as suspeitas de forma concludente: O Iraque estava a produzir grandes quantidades de gás Sari e VX, absolutamente letais para o sistema nervoso e estavam a ser carregados em “esferas ocas de vidro”. Porém houve alguém que curiosamente também reparou que os alegados detalhes que haviam sido relatados pela suposta fonte se assemelhavam às cenas do filme A Rocha (1996) com Sean Connery e Nicolas Cage.

Esta é uma das inúmeras histórias narradas no documentário da BBC realizado pelo britânico Adam Curtis HyperNormalisation (2016) onde o mesmo realizador, do igualmente aclamado “O Século do Ego” e All Watched Over by Machines of Loving Grace, pretende dissecar e revelar que desde a década de 1970, governos, financistas, jornalistas e utopistas tecnológicos se prontificaram a abandonar o mundo real e não só construíram como também passaram a viver nesse mundo falso simplista, esquemático e maniqueísta. Um mundo administrado por corporações e mantido estável pela política que passou a ser administrado pela “gestão da percepção”, uma versão hiper-realizada da antiga engenharia da opinião pública, sustendo-se em termos provocantes, tais como: “climas de opinião” e “ondas de choque” cuja demanda central é precisamente eliminar as fronteiras entre ficção e realidade – mais concretamente, entre as narrativas de entretenimento (filmes, animações, literatura, minisséries etc.) e os acontecimentos pautados na imprensa e comunicação social.

Naturalmente que a natureza: “muito secreto”, “secreto”, “confidencial” ou “reservado” apresenta outros níveis de complexidade, mas o que talvez se revela mais pertinente analisar é o peculiar empreendimento das agências de inteligência de instrumentalizar a terminologia conspiratória para camuflar outros projetos irrevelados, ou seja as narrativas para desinformar.

Regressamos novamente à conclusão que existe legitimidade na consideração de uma inerente teatralidade na configuração das narrativas reportadas. Se eventualmente for utilizada a mesma metodologia experimental, que diferencia a atividade científica, revela-se irrefutável que existem inúmeros precedentes de histórias perniciosamente erróneas patrocinadas pelos representantes políticos com o intuito de encobrir a verdadeira agenda geopolítica e económica, todavia mantém-se a qualificação negativa não só na atitude de desconfiança como na pragmatização de indagar outras possíveis razões que justifiquem os incidentes narrados. A avaliar este fenómeno de desinformação deliberada deveria ser senso comum considerar um “teórico da conspiração” como simplesmente um pensador crítico ou um cético em eventuais disposições mais extremadas no espectro epistemológico. No entanto, gerou-se (talvez propositadamente) um clima ainda mais depreciativo para quem tenta reconstruir os seus mapas mentais e é neste ponto que talvez seja interessante analisar sucintamente a frase epónima de Robert J. Hanlon.

“Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez”

Existe sempre uma tendência quase antropológica de assumir precipitadamente uma eventual voluntariedade malvada, fria ou insolente quando um determinado evento desfavorável ainda não conhece esclarecimento ou justificação e foi com esta “navalha” (axiomas utilizados nos subcampos filosóficos da lógica e da epistemologia que permitem a eliminação de explicações improváveis ou impossíveis para determinados assuntos.) que Hanlon analisou a predisposição falaciosa normalmente comum a todos os indivíduos. Logo, existe uma fundamentação ponderada que suporta a ideia que o ser humano possa estar formatado em persistir na deteção, muitas vezes infundadas, de intencionalidades maquiavélicas.

“…mal-entendidos e negligências criam mais confusão neste mundo do que a traição e a malícia, os dois últimos são certamente muito menos frequentes.” – Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) de Goethe

Recentemente houve ainda contribuições de aprofundar esta teoria, considerando um nível ainda mais profundo, nomeadamente os incentivos – sugerindo uma transformação no modelo mental ilustrado na frase epónima:

Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez e nunca atribua à estupidez o que pode ser adequadamente explicado pelos incentivos”

Esta proposição pretende alumiar que a devoção e o empenho em determinados objetivos pessoais ou profissionais podem constituir forças maiores e razões suficientemente válidas para originar negligências, corrupções e mesmo eventuais atos insidiosos. Uma autora que realizou uma investigação exaustiva neste tipo de fenomenologia foi Hanna Arendt com o seu conceito de “banalidade do mal”.

“Em nome dos interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para aqueles que desprezam.” – Hannah Arendt

Crédito a mikeelias.com

Portanto também é necessário incluir esta prudência relativamente à subtileza falaciosa que se pode agarrar ao nosso apetite por corrilações – falácia lógica denominada “cum hoc ergo propter hoc” (do latim “com isto, logo por causa disto”). Contudo é inevitável completar a circunferência: É totalmente compreensivo principiar a reflexão numa disposição cética quando se propõe “conspirações”, mas também se revela urgente o mesmo ceticismo perante a outra face da moeda, nomeadamente as “coincidências”.

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