Recentemente temos assistido a uma subversão coletiva sustentada por um empreendimento intelectual cuja pretensão é alumiar deficiências estruturais e sistémicas nas sociedades ocidentais. A aparente complexidade no discurso disfarça-se numa alegada análise profunda nos mecanismos de poder, estendendo a sua legitimidade crítica para as relações sócio económicas e legados culturais que impõem uma normatividade, que intrinsecamente privilegia indivíduos brancos, condicionando para esse efeito indivíduos pertencentes a outras etnias.

O argumento que acalentou o temperamento reacionário e mobilizou eficazmente, não só milícias ideológicas, mas também pessoas não tão investidas na preponderância da dialética na fenomenologia social; assume sinteticamente, que o benefício inerente de um grupo necessita da coação generalizada dos restantes grupos.

Este materialismo dialético constituído por silogismos familiares tem vindo a revelar uma intemporalidade recreativa, permanecendo apelativo e substancializado para o individuo desconfiado dos elementos constitutivos da realidade ou determinações do real.

Quando o indivíduo singular começa a descamar as “abstrações razoáveis” sente um ímpeto insurgente e encolerizado que o aproxima da integração de uma coletividade igualmente agastada pela tendenciosidade que caracteriza a realidade social. Esta integração representa a plenitude de vozear a sua indignação e mais profundamente, a possibilidade transcendente de pertencer a um movimento que pretende operar uma mudança disruptiva.

Compreende-se o quão apetecível se afigura esta propriedade intelectual sendo que a intemporalidade enraizada no edifício lógico, que possibilita a alternância adequada nos sujeitos constrangidos consoante a tese que se pretende antagonizar, chega mesmo a ser admirável intelectualmente. Porém, não se pode deixar de ressalvar a perigosidade de incorporar este vocabulário ideológico sem dedicar um estudo exaustivo relativamente às dissonâncias teórico/práticas consumadas em momentos históricos antecedentes, às insupríveis caracterizações identitárias dos povos e às estagnações comprometedoras no domínio económico que também se verificaram, bem como os indissociáveis crimes humanos conceptualizados como “contrarrevolucionários”.

Desconhecer ou voluntariamente ignorar estes momentos ilustrativos do que ocorre numa sociedade onde a singularidade aquiesce à doutrinação coletiva e à natureza interminável do âmbito revolucionário é contrariar fundamentalmente a excecionalidade existencial. O filósofo espanhol Miguel de Unamuno no seu “Do Sentimento Trágico Da Vida” contém uma passagem esclarecedora sobre a relevância de ancorar a experiência exterior no sujeito interior:

“E frente a hipotética pergunta que poderia lhe fazer um leitor “quem é você?” – Unamuno diz lembrando as palavras de Obermann: “Para o universo, nada; para mim, tudo!” “

Ora aceitar uma versão panfletária de uma propriedade intelectual exigente, cujas ramificações abstratas implicam uma epistemologia sofisticada e sensibilidade crítica apurada, sem considerar as execuções passadas e as impraticabilidades que precipitaram o anelo utópico para o totalitarismo descomedido é precisamente a rejeição da humildade epistémica na resposta assertiva de Unamuno. O termo depreciativo mais apropriado para definir este comportamento imponderado é o de “idiota útil” definida no jargão político como uma pessoa percebida como propagandista duma causa sem compreender completamente os objetivos da respetiva causa, e que é cinicamente usado pelos seus líderes.

Muitas vezes se tentou associar a autoria do termo a Lenin e está devidamente documentado que o termo foi originalmente usado durante a Guerra Fria para descrever não comunistas considerados suscetíveis à propaganda e manipulação comunista. No entanto, já são conhecidas investigações concludentes de que o termo não foi empregue nas obras do antigo chefe de governo da Rússia Soviética. Houve sim uma designação semelhante que se conseguiu rastrear devidamente à sua origem, nomeadamente a de “inocentes úteis” que aparece primeiramente no livro Planned Chaos (1947) do economista Ludwig von Mises. Onde o autor escreveu que o termo fora usado pelos comunistas para liberais, que von Mises descreveu como “simpatizantes confusos e mal orientados”.

Estas convulsões na sociedade civil e o crescente ativismo racial não se consegue interpretar somente pela influência ideológica ou apetite anárquico. A verdade é que este comportamento é característico de um arquétipo inúmeras vezes aplaudido no cinema. Um protagonista branco benevolente que se opõe a uma discriminação grotesca, sofrendo as represálias sociais por não estar em concordância com o racismo indiscutível é metade da fórmula para o reconhecimento da academia.

O filme The Help recuperou popularidade face à conjuntura incendiada sendo um dos “most-streamed movies” na Netflix. Um filme onde a protagonista Skeeter (Emma Stone) determinada a ser escritora acaba por lutar incansavelmente com o intuito de denunciar a violência sistémica que vitima as mulheres negras da cidade que deixaram as suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca, da qual a própria Skeeter faz parte. Este filme, tal como, por exemplo, o Green Book (2018) com Viggo Mortensen ou Blind Side (2009) com Sandra Bullock preferem centrar a história nesta personagem arquetípica, que oferecer a protagonização à perspetiva na primeira pessoa do negro diminuído.

Este “salvador branco” identifica-se como uma pessoa resiliente, otimista e não tradicionalista, arriscando-se corajosamente a ser ostracizado pela sua comunidade discriminatória de forma a conseguir ajudar uma pessoa de raça ou etnia diferente. Costumam protagonizar um filme de época, onde esta personagem se encontra à frente do seu tempo contrastando contundentemente com o contexto racista consensual na sua era. O enredo tende a gravitar à volta do seu desenvolvimento narrativo e se é legitimo entender que estes filmes conseguem eloquentemente advogar por unidade e justiça, também é inegável que acabam por condescendentemente secundarizar as suas personagens étnica ou racialmente violentadas.

Talvez a característica mais convergente nesta tipologia ficcionaria é o último ato onde se entrega uma resolução efabulada de final feliz de forma a confortar o espectador com a sensação de que a contínua complexidade desta problemática é essencialmente solucionada por um individuo branco virtuosamente obstinado. A popularidade desta narrativa despoletou nos anos 50 durante o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, enquanto ativistas afro-americanos contestavam o segregacionismo a indústria cinematográfica explorou a forma como o branco lidava com esta tensões sociais, exemplos imediatos que fundamentam esta observação encontram-se nos clássicos 12 Angry Man (1957) e How to Kill a Mockingbird (1962).

Nos final dos anos 80 até aos anos 2000 filmes aclamados como Mississipi Burning (1988), Glory (1990) e Amistad (1997) articularam mensagens aspiracionais sobre liberdade e igualdade, mas fizeram-no exaltando as experiências e adversidades de protagonistas brancos e o filme que iniciou esta reflexão (The Help) optou precisamente por este mesmo modelo, preterindo a perspetiva das criadas que deixaram as suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca pela perspetiva da jovem mulher branca que quer escrever um livro sobre elas.

Estes filmes carecem voluntariamente de tridimensionalidade no retrato das personagens discriminadas, pois são reduzidas às suas experiências negativas, muitas vezes sendo retratadas com uma passividade incompreensível, como se tivessem nascido exclusivamente para sofrer, enquanto os “salvadores brancos” tem desenvolvimento de caracter complexos, momentos românticos e desafios exteriores que dão a entender pretensiosamente que são igualmente vitimados pelo racismo que pretendem combater.

Este tipo de conteúdo cinematográfico é tão pernicioso quanto o analfabetismo ideológico funcional se eventualmente o objetivo for reformar a sensibilidade social para as divergências comunitárias entres grupos racial e etnicamente distintos. O exacerbado simplismo com que se desfecham este tipo de histórias constituem disfarçadas convocatórias para o ativismo imponderado, mas não deixam fundamentalmente de estarem grotescamente divorciadas da realidade. A postura combativa nessas realidades caricaturadas tem vindo a alimentar o imaginário de pessoas que usam o cinema como catarse, a conclusão positiva coincidente com um gesto emblemático é uma ilusão temperada com esperança que cinicamente recruta o espectador na tentativa de recriar no real a narrativa lecionada.

Este é um ponto convergente entre a ideologia e o cinema e é relevante desmistificar as personagens e as narrativas estruturais que delimitam as perceções singulares, pois não existem escapatórias deus ex machina quando se caminha em territórios abstratos, ou como dizia Descartes:

“Não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis.”

Esta narrativa prontamente reconhecida e aplaudida pelos prémios da academia faz pela resolução do racismo o mesmo que a pornografia faz pelo sucesso conjugal e é importante direcionar devidamente essa ânsia de mudança onde verdadeiramente importa, caso contrário continuaremos a assistir a multidões compostas por idiotas úteis a querer ser salvadores brancos.  

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