“Até agora, a vida humana tem sido geralmente, como Hobbes descreveu,” desagradável, brutal e curta”. A grande maioria dos seres humanos (se não morrerem prematuramente) são inevitavelmente vitimados pela miséria e enfermidades… podemos justificadamente manter a crença de que existem estas terras de possibilidade, e que as atuais limitações e frustrações miseráveis ​​da nossa existência podem ser, em grande medida, superadas… A espécie humana superada pode, se o desejar, transcender a si mesmo – não apenas esporadicamente, um indivíduo aqui de uma maneira, um indivíduo lá de outra maneira, mas na sua totalidade, como um todo.”

Este parágrafo relativamente violentado (a exposição integral seria bastante extensa) foi redigido pelo biólogo Julian Huxley, irmão do aclamado escritor distópico Aldous Huxley. Este autor é considerado, por alguns, como o fundador do primeiro esboço conceptual do transumanismo. O característico aspeto fictício que tão levianamente justifica o entretenimento reflexivo em matérias hipotéticas deveria ter sido refreado quando se verificaram os primeiros antagonismos teórico/práticos. A quantidade de tecnologias que desiludem e acabam por servir ambições contrárias às manifestadas originalmente são demasiadas para ainda receberem o enquadramento excecional. Um exemplo que ilustra bem esta aparente invariabilidade, consegue-se encontrar na antiga frase do código de conduta da Google “Don´t be evil”.

É tão fácil diagnosticar cinicamente uma eventual corrupção dos princípios iniciais de uma corporação tecnológica, que a Google tentou expressar contundentemente um mandamento ético através de uma linguagem pouco convidativa a ambiguidades interpretativas. É certo que o conceito de maldade pode diferir consoante subjetividade, porém o termo será sempre “evil” e não “bad”, logo qualquer definição de maldade ou crueldade irá conter uma certa intencionalidade malévola mesmo que involuntária, logo o apelo também serve como advertência, possibilitando a reflexão terceirizada da ação desempenhada. Não seria suficientemente repreensivo, face à perigosidade eminente, uma espécie de curadoria linguística e acrescentar “Don´t be evil on purpose”.

Após a reestruturação corporativa da Google sob o conglomerado Alphabet Inc em outubro de 2015, o obtundente “slogan” foi, lamentavelmente, preterido por uma frase que já havia sido utilizada para intitular um filme do Spike Lee – “Do the right thing”. Evidentemente que esta frase não expressa a mesma veemência aquando impasses deontológicos, precisamente por ser significativamente mais utilitarista, entre um mal menor e um mal maior, uma maldade menor será sempre a coisa certa.

Este pragmatismo é essencial para constatar o distanciamento que separa as ambições existências das minudências circunstanciais. A empregabilidade moral do ser humano será sempre falível, seja no seu comportamento relacional intraespecífico ou na exportação tecnológica, pois as derradeiras questões ontológicas continuam a empecilhar os raciocínios singulares e coletivos do ser humano. A melhor analogia é imaginar alguém a tentar voar sem conhecer as leis regentes na aerodinâmica: mesmo que o aparelho inspire confiança e mesmo que este tenha sido submetido a metodologias rigorosas, haverá sempre um aspeto fundamental que irá ser negligenciado, porém ao tentar voar, enquanto se está a cair é plausível que se julgue estar a ser eficaz. Faz lembrar uma antiga anedota onde um certo aventureiro salta de um prédio de 20 andares, sem cordas nem paraquedas, acreditando que conseguiria chegar ao chão em segurança e sempre que passava um andar, ele sorria e gritava: “Até agora está tudo a correr bem!”.

É com este humor revelador que formulo a questão: Como é que se vai ser transumano se ainda não sabemos ser humanos?  Este momento alusivo à consolidação simbiótica também é nomeado de pós-humanismo o que ainda atrapalha mais a interrogação, pois quando apropriada, a frase ficaria assim: Como é que se vai ser pós-humano se ainda não sabemos ser humanos?

Esta temática da transcendência humana auxiliada pelo feiticismo tecnológico assume facilmente contornos bíblicos, pois foi a mesma irreverência que levou o primeiro casal a consumir o interdito fruto do conhecimento que ainda caracteriza a audácia de artificializar a omnisciência. A complexidade algorítmica do Google, no fundo, não deixa de ser um descendente da lança usada pelo homem paleolítico. Todavia, esta integração tecnológica apresenta-se como um dilema existencial intrincado, se usar óculos com o intuito de amparar deficiências visuais se revela inofensivo e até abonatório, então servir-se de um chip instalado junto ao cérebro com a capacidade de retificar lesões paralisantes também se deveria afigurar como algo capitular nos adventos da medicina, afigurando-se como um verdadeiro “milagre científico”. Contundo só um otimista muito profissional é que consegue silenciar a desconfiança inerente, relacionada com as contrapartidas associadas a essas promissoras resoluções.

Para contextualizar esta problemática revela-se conveniente revisitar a demonstração da Neuralink no dia 28 de agosto de 2020, até para dissipar a forçosa conotação hipotética, pois este futuro não está tão distante como estava para Julian Huxley. Meses após a primeira apresentação, muita coisa mudou na conceptualização inicial da empresa de Elon Musk, mas um dos aspetos que foi imediatamente reforçado pelo CEO da empresa, foi precisamente a finalidade exclusivamente médica e a desatenção face à possibilidade consumidora para o público geral. Musk ilustrou na sua apresentação que quase toda a gente adquire problemas neurológicos com o passar do tempo e salientou a necessidade de um dispositivo cerebral viável como única possibilidade para contornar condições como:

  • Perda de memória;
  • Perda de audição;
  • Cegueira;
  • Paralisia;
  • Depressão;
  • Insónia;
  • Dor extrema;
  • Convulsões;
  • Ansiedade;
  • Vícios;
  • Derrames;
  • Danos cerebrais.

Elon Musk chegou a comparar o dispositivo da Neuralink com projetos já existentes, como o Utah Array, que possui bem menos elétrodos e serve-se de pequenas garras cujo intuito é serem afixadas na cabeça, dependendo de fios e caixas grandes, o que não aparenta ser muito confortável, nem agradável visualmente, havendo ainda a consideração relativamente a riscos de infeção.

Outra das alterações demonstradas encontra-se no dispositivo que se tornou mais discreto, mas mais invasivo. O que antes era conectado atrás das orelhas, com os elétrodos a percorrer um caminho até o cérebro, agora é um implante que se localiza no topo da cabeça. “É como uma Fitbit no seu crânio, com fios muito finos”, afirmou o CEO, alegando que o chip será capaz de não só fazer a monotorização de saúde do utilizador, o que já é conhecido em relógios e pulseiras inteligentes, mas também para executar funções quotidianas, como selecionar e música e ouvir “interiormente”, por exemplo.

Silde na apresentação Neurolink 28 de agosto 2020

Portanto, foi simplesmente uma questão de meses para se atalhar para uma ponderação esteticamente minimalista relativamente ao aspeto do microchip, a eficiência da aplicabilidade do aparelho parece estar relativamente assegurada ao ponto de se poder conciliar reflexões interdepartamentais, logo podemos presumir que o ritmo evolucionário desta tecnologia será ainda mais pressuroso que aquele com que forçosamente nos fomos familiarizando. No entanto, o ponto climático desta apresentação chegou com a ilustração prática da eficiência tecnológica do respetivo aparelho – e são estas as conclusões mais pertinentes para a natureza ensaística das nossas análises.

A Neuralink levou à apresentação três porcos: um sem o implante, um que teve o implante e foi retirado, e um com o implante instalado há dois meses. A finalidade da demonstração, além de revelar que os 3 estavam em boas condições de saúde, havendo a possibilidade posterior de se retirar o chip, era apresentar os avanços na compreensão do dialeto neurológico – Reading Brain Activity. Foi nesse âmago que o porco com o chip, foi alimentado por um dos cuidadores enquanto a sua atividade cerebral era exposta na tela. Os resultados foram estarrecedores, pois conseguia-se verificar e padronizar a comunicação exercida na respetiva sinapse. Não foi só a compreensão da “linguagem neurológica”, mas também a premonição comportamental que se auspiciou na demonstração, pois num segundo exercício, em que o porco simplesmente caminhava numa passadeira automática, conseguia-se até depreender o movimento “pensado” prévio à materialização do ato – sendo esta interpretação neurológica intermediada pelo aparelho, a promissora ideia de convalescer o paralítico – importa sublinhar a recomendação para a visualização deste vídeo de forma a compreender melhor as implicações desta apresentação.     

Já sabemos que a manifesta vontade no ponto de partida desta simbiose é mudar o mundo para melhor e aproximar a humanidade da plenitude, confesso que até partilho de algum cansaço relativamente a estas promessas líricas altamente comercializáveis, por isso mesmo é que se recomenda inelutavelmente uma boa dose de cinismo, nem que seja para honrar Diógenes que simplesmente solicitou a Alexandre o Grande para lhe sair da frente, pois estava a tapar o sol quando este lhe havia dito para pedir qualquer coisa.

Para além das posições de natureza religiosa, os desenvolvimentos da engenharia genética e das biotecnologias, em geral, ocorridos nas últimas décadas também têm sido acompanhados por um debate de caráter filosófico. Tanto nos opositores e/ou céticos da aplicação das novas tecnologias como nos seus defensores, encontramos autores com diferentes posicionamentos ideológicos.  Francis Fukuyama ao abordar estas questões no seu livro “O nosso futuro pós-humano”, sustenta que a ameaça mais significativa que é colocada pela biotecnologia contemporânea é a alteração da chamada natureza humana e o consequente resvalamento para uma fase pós-humana.

Fukuyama defende que juntamente com a religião, a natureza humana é aquilo que define os nossos valores fundamentais. No entanto, para ele, embora a religião providencie o mais óbvio campo de oposição a certos tipos de biotecnologia, reconhece que os argumentos religiosos não serão aceitáveis para muitas pessoas que não reconhecem as premissas segundo as quais esses argumentos assentam. Neste contexto, Fukuyama defende a necessidade de recorrer a outro tipo de argumentos que se enquadrem no pensamento secular. O autor debruça-se assim sobre argumentos filosóficos desde logo ancorados na revolução americana e nos seus fundamentos. A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América assenta na premissa que, apesar das grandes variações que apresentamos enquanto indivíduos e membros de uma determinada cultura, todos partilhamos uma humanidade em comum que nos confere, em potência, a possibilidade de comunicar e estabelecer uma relação moral com qualquer outro ser humano no planeta. Aliás, é uma conceção de humano que em muito se baseia na filosofia aristotélica, em particular na ideia de que podemos distinguir o que é natural do que é convencional e, nessa medida, ordenar racionalmente os méritos humanos.

Francis Fukuyama define a natureza humana como sendo “o somatório dos comportamentos e das características que são típicos da espécie humana e que tem origem genética e não ambiental”.

Francis Fukuyama

O pensador não deixa de colocar a hipótese de no decorrer da evolução da espécie ter havido a emergência de uma alma no ser humano. É uma ideia que não costuma a ser objeto de estudo pela ciência, mas que do ponto de vista filosófico não é negligenciável até porque tem implicações jurídicas. O autor aborda com especial incidência os desenvolvimentos ocorridos na biotecnologia para questionar se as técnicas de manipulação genética, que temos vindo a dominar, não nos tornarão menos complexos colocando em causa a nossa humanidade. De facto, não deixa de ser verdade que estão em causa toda uma série de procedimentos que poderão (e já estão) a selecionar a forma como as futuras gerações irão nascer, introduzindo diferenças a vários níveis que não seriam replicáveis pelos meios tradicionais de reprodução sexual. Fukuyama defende o estatuto moral do embrião afirmando que a falácia que muitos apontam aos chamados direitos naturais é ela própria uma falácia. Na verdade, ao longo da história da espécie, o ser humano caracteriza-se por uma constante luta pela liberdade e pela disseminação da sua linhagem. Isso faz com que o direito à vida e à liberdade de decidir sobre si mesmo deva ser algo consignado pela lei. Tendo uma perspetiva cética em relação à manipulação genética de células estaminais e ao uso da clonagem, o autor chega até a questionar, temendo a promiscuidade sexual familiar e intergeracional, que tipo de relações, do âmbito da atração sexual, se poderão gerar entre um pai e um filho clone que seja uma cópia do outro membro do casal (idem).  

De forma relevante, o autor menciona problemáticas de ordem socioeconómica que se podem originar num cenário em que diferentes técnicas da biotecnologia, como por exemplo as terapias genéticas, possam alterar de forma significativa as capacidades humanas individuais:

“Se as famílias ricas virem subitamente abrir-se a possibilidade de aumentar a inteligência, não só dos seus filhos, mas de toda a sua descendência, estaremos perante um cenário que comporta não apenas um dilema moral, mas uma luta de classes em toda a linha”

É esta afirmação que nos permite refletir sobre o recente fenómeno virtual que anda a fazer furor com a comunidade Gaming, nomeadamente o Cyberpunk 2077.

Este conceito emprestado que faz o título do mais recente RPG distópico principiou o seu universo nos anos 80 com os romances “Neuromancer” e “Count Zero” de William Gibson. O subgénero continuou com Altered Carbon”, de Richard Morgan, “Startide Rising”, de David Brin e os icónicos filmes “Blade Runner”, “Matrix” e “O Exterminador do Futuro”.

Existem algumas características ou requisitos que tendem a perfilar esta tipologia de narrativas, mas um aspeto primário de tão consensual que se revela é precisamente a familiaridade concetual que compõe a realidade distópica ilustrada, ou seja, as injustiças sociais e adversidades éticas que nos atormentam no presente, simplesmente são ampliadas através do imaginário cibernético, não há por isso propriamente uma arquitetura rebuscada e ininteligível na estruturação social, mas sim um exercício hipotético de precipitar uma reflexão existencial sobre as incompatibilidades da espécie humana com a tecnologia, caso se consuma a respetiva simbiose prematuramente.

Estas histórias são maioritariamente constituídas por referências distópicas num enquadramento capitalista implacável onde a solidariedade social é inexistente, e as relações de classes estão completamente estratificadas e disfuncionais, originando tribos urbanas que se opõem ao sistema instaurado. Ressalva-se também a predominante atmosfera pseudoapocalíptica, personagens dominados pela inteligência artificial, engenharia genética e multinacionais que substituíram o poder político. 

Cyberpunk Scenery

Ao consultar a sinopse do jogo lançado a 10 de dezembro deste ano, verificamos imediatamente estes requisitos respeitados e devidamente aprofundados através de uma experiência na primeira pessoa (FPS).

“Night City é uma megacidade americana localizada no Estado Livre da Califórnia do Norte, controlada por corporações – legislações locais e nacionais não têm efeito na região. Existe um conflito interno constante entre gangues e outras entidades que procuram dominar a cidade. Night City depende da robótica para todos os aspetos diários como coleta de resíduos, manutenção e transportes públicos. A internet é administrada pelo exército e corporações.

A falta de habitação é abundante, mas isso não impede a modificação cibernética para os pobres, dando origem ao vício em cosméticos e consequente violência. Estas ameaças são enfrentadas pela força armada conhecida como Psycho Squad. O Trauma Team é uma equipe especializada em medicina de intervenção rápida. Por causa da constante ameaça física, é permitido a todos os cidadãos o uso de armas de fogo.”

Não se pode ignorar a ideia de programação neurolinguística e da linha ténue que separa a realidade da ficção, já abordamos variadas vezes esta cumplicidade (mais concretamente no artigo “conspirações e coincidências”). Compreendemos com mais facilidade o comportamento ilógico e por vezes desprovido de qualquer tipo de ponderação neste contexto pandémico, se eventualmente lembrarmos a abundância de conteúdo apocalíptico, zombies, decadentismo e cenários de extinção (repara-se na ironia no facto deste conteúdo representar entretenimento predileto). Ora, também é inegável que a ficção científica é o género mais requisitado atualmente, não necessariamente pelos consumidores, mas mais pelos produtores. O próprio Cyberpunk 2077 não correspondeu propriamente à expectativa inicial, como podemos consultar neste artigo escrito na ING.

https://pt.ign.com/cyberpunk-2077/93945/news/cyberpunk-2077-investidores-perdem-mais-de-mil-milhoes-de-dolares

O interesse corporativo aparenta estar tão interessado a capitalizar o zeitgeist atual como a forçar a própria agenda e se o cyberpunk combina várias tendências narrativas, como os clássicos da ficção científica do século XX (romances como “1984” de George Orwell e “O admirável mundo novo” de Aldous Huxley – Irmão do pai do transumanismo), então também é legítimo afirmar que se tolera mais facilmente o familiar que o insólito.

Algo muito sinistro ocorreu na metanarrativa da ficção científica, nomeadamente a empatia pelas motivações do vilão e o desencanto face ao idealismo do herói. Exemplos imediatos na cultura pop são encontrados em Thanos, opositor na série Avengers que elimina metade da população munidal; Joker, vítima da negligência e alienação social; Killmonger, o vilão em Black Panther inconformado com a passividade dos oficiais de Wakanda face ao racismo; August Walker, o vilão utilitarista do filme “Missão Impossível 6” que pretende destruir um terço do mundo na esperança que os sobreviventes consigam coexistir mais humanamente etc, etc. (aqui o uso do “etc” serve mesmo para abstrair a panóplia de vilões que correspondem a este arquétipo eugenista)

Não é propriamente difícil depreender esta empatia, o ser humano já há muito tempo que tem vindo a ser vilipendiado, sendo considerado como o maior adversário e exclusivo culpado pelas dificuldades ambientais, climáticas “etc”. O homem é mau, (isto cada vez mais se revela senso comum) mas talvez a máquina ajude a reparar, assim promete o moderno Alexandre Magno.  

Alexandre Magno e Diógenes

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