Milan Kundera escreveu um artigo em 1984: “A Kidnapped West or Culture Bows Out”, no qual definiu a cultura europeia como: 

“caracterizada pela autoridade do pensamento, duvidando do indivíduo e de uma criação artística que expressava sua singularidade”. Por outro lado: “ nada poderia ser mais estanho à Europa Central e sua paixão pela diversidade do que a Rússia: uniforme, padronizador, centralizador, determinado a transformar cada nação do seu império… não apenas como mais uma potência europeia, mas como uma civilização singular, outra civilização(…)”.

O artigo na altura provocou um debate entre Kundera e o poeta e dissidente russo Joseph Brodsky, que se opôs vigorosamente à visão de Kundera. A essência da civilização europeia, segundo Brodsky, não seria o individualismo ocidental moderno, uma cultura que para ele perdeu a relação com suas raízes, mas o Cristianismo. A verdadeira luta seria: “entre a fé e a abordagem utilitarista da existência”.

 

Milan Kundera
Joseph Brodsky

Ao olharmos para o recente debate entre Bernard-Henri Lévy e Aleksandr Dugin podemos de certa forma revisitar um debate em tudo similar e  controverso:

É a mesma tensão entre visões de mundo antagónicas, nas quais, apesar de tudo haveria margem para o debate. Porém, o mundo está a mudar a uma velocidade vertiginosa e à mesma velocidade se propaga a informação e narrativas simplificadas; para a qual os media com a sua manufactura do consentimento, da realidade simplificada que é transmitida diariamente, não permitem que de forma aprofundada se debruce o origem e motivações sobre visões do mundo diametralmente opostas ou se, de alguma forma é possível estas conviverem no mundo atual. A “geração Iphone” com a mesma velocidade dos cliques e “gostos” prefere fazer uma superficial sinalização de virtude ao invés de procurar compreender as origens geopolíticas , sociais e económicas de qualquer conflito.
Vivemos, contudo, tempos interessantes e certamente a visão de Brodsky ganhará mais terreno, porém, não sem alguma razão, pois vimos de forma cristalina durante os últimos dois anos como a dúvida epistémica individual – princípio e razão fundacional de uma sociedade ocidental livre – foi facilmente substituída pela massa obediente, amedrontada e irracional.

Algumas semanas atrás, a Orquestra Filarmônica de Cardiff decidiu cancelar um concerto de Tchaikovsky, “desculpando-se” de que o mesmo seria “inapropriado neste momento”. Não sendo a excepção, desde o estalar da guerra que tem sido cada vez mais recorrente na Europa Ocidental, artistas russos verem os seus compromissos profissionais e artísticos cancelados e alguns até serem demitidos.

Um artigo recentemente publicado na revista Reason, retrata Tchaikovsky como:

“um dos primeiros e únicos compositores russos a evitar o nacionalismo russo e valorizar sua música no Ocidente, tornando-se naquilo que muitos historiadores considerariam como uma das poucas pontes entre a arte russa e europeia.”

Porém, hoje a multidão barulhenta não vê qualquer diferença entre Tchaikovsky e Putin. Não há diferença entre o compositor pró-humanismo ocidental e o agente da KGB transformado em déspota. A (i)”lógica” é mais ou menos esta: “Putin invadiu a Ucrânia. Tchaikovsky tal como Putin foi Russo, logo a música de Tchaikovsky não deve ser ouvida.”

Se os últimos dois anos não tinham sido esclarecedores, fica mais uma vez exposta a hipocrisia da superioridade moral de muitos ocidentais: – O indivíduo não interessa mais, o que interessa é um mundo a preto e branco, de maniqueísmos e realidades simplificadas nas quais se divide tudo entre “bons” e “maus”.

A invasão da Rússia por Napoleão em 1812 foi um dos maiores desastres da história da guerra; num exército de 600.000 franceses apenas um sexto sobreviveu. A Rússia perdeu mais de 200.000. Como Tolstoi relata em Guerra e Paz, mesmo no auge da guerra com Napoleão não houve mudança na devoção russa à cultura francesa. A aristocracia não parava de falar francês. Músicos franceses e professores não foram demitidos, os livros franceses não foram queimados; pois, naquela época, as pessoas ainda entendiam a importância da distinção entre cultura e política. Eles sabiam que a arte é independente da nacionalidade ou credo, o seu valor não depende de quem governa o país onde ela foi produzida, e esta não pode ser manchada nem mesmo pelas atrocidades da guerra; a arte sendo arte transcende épocas e atravessa culturas, portanto está acima de déspotas que vão e vem e ficam nas cinzas da história. Infelizmente nos dias de hoje decisões de cancelamento de fulano “a” ou “b” já não nos surpreendem. Estamos já habituados a que artistas, escritores e músicos sejam cancelados, os seus trabalhos censurados, por razões que nada têm a ver com arte. Ficamos facilmente sensibilizados e nutrimos compaixão com as vítimas da guerra, apoiamos sanções etc. mas, a atual procura predominante e egocêntrica de uma vida livre de riscos, desafios, pensamento e de responsabilidade; com ou sem guerra, é na sua essência a antítese de uma verdadeira cultura; ironicamente a Filarmônica de Cardiff ficou do lado dos brutos, não da arte.  Não da mesma forma que uma multidão histérica é unida por uma indignação superficial; A arte une, além-fronteiras e nacionalidades, une as pessoas como indivíduos pensantes. Pode por vezes provocar sensações difíceis de processar, pode-nos forçar a reconsiderar as nossas crenças e valores, até as nossas vidas e, no final, é isso que constitui o seu verdadeiro valor intrínseco; precisamente por ser reflexo do poder do indivíduo enquanto ser criador do belo e não como agente destruidor, principalmente em tempos de guerra, a arte deve ser celebrada não censurada, pois em tempos de crise a arte é uma réstia de esperança num mundo melhor.

O tema da Abertura de 1812 de Tchaikovsky retrata um evento sangrento que ocorreu quando um déspota – Napoleão – perdeu noção e foi longe de mais. Precisamente por isso, louvar a sua obra revela-se mais pertinente do que nunca. A falha em perceber isso mesmo, significa que perdemos de todo a nossa ligação com os nossos próprios valores, através dos quais definimos a nossa cultura. 

Em alternativa, tal como em “1984” de Orwell, temos a “semana do ódio”. Desta vez, ela foi dedicada à música de Tchaikovsky.

Não esqueçamos, porém, que o indivíduo pensante de Kundera, nunca participaria na “semana do ódio”, nunca censuraria artistas de uma nação, quaisquer que sejam as atrocidades que seus atuais governantes cometessem. Em vez disso, ele continuará a resistir às forças do mal, que são essencialmente as mesmas forças que estão por trás da agressão do déspota e da agressão das turbas do cancelamento e da censura.

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