Atualmente o mundo é composto por 190 países que utilizam 180 moedas distintas de forma a conseguirem negociar, investir, cobrar impostos e restantes transações económicas, isto poupando a referência das emergentes cripto-moedas e das reservas milenares como ouro e prata. Os procedimentos quotidianos na economia global facilmente conseguem ser caracterizados pela sua complexidade, especialmente o FOREX (acrónimo para a expressão em inglês foreign Exchange) que é o mercado financeiro descentralizado destinado a transações de câmbio, que parece acrescentar uma camada adicional de confusão. A moeda é fundamentalmente uma abstração facilitadora na atividade comercial, daí a legítima e consequente reflexão relativamente à plausabilidade na adoção de uma moeda universal.

Numa primeira instância esta eventualidade aparenta ser uma solução óbvia capaz de resolver as frustrações presentes em todos os níveis da indústria global, assumindo também uma inegável conveniência no fenómeno individual e no contexto corporativo, porém não se trata somente  de uma questão de comodidade, pois a remoção das dificuldades que empecilham as respetivas transações resultam num impacto bastante real na economia.

Curiosamente o primeiro registo escrito da humanidade encontrado na antiga Mesopotâmia por volta de 3000 a.C. surge precisamente para colmatar a necessidade do desenvolvimento da economia e esta preponderância tem acompanhado o desenvolvimento da espécie, desde a evolução da troca de moedas de ouro às moedas fiduciárias até aos dias modernos onde fazemos a maioria das nossas transações em ambientes digitais. A pressurosa conjuntura económica e a prosperidade consequente da inventividade financeira fazem com que inevitavelmente se coloque a questão se a moeda universal será o próximo passo diacrónico, todavia existem perguntas prementes a exigir resposta, bem como a necessidade de diálogo informado e prudente sobre as vantagens e respetivas contrariedades.

O conceito de moeda única não é necessariamente uma novidade, primeiramente pois durante muitos anos o ouro era universalmente aceite como um meio de troca padronizado no mundo moderno, por mais chocante que isto fosse para os Incas no século XVI que não compreendiam a avareza dos espanhóis pelo metal que eles associavam simbolicamente ao suor de deus, e por último devido à adoção do euro pelos países integrantes da união europeia. Portanto afigurar a viabilidade de uma moeda mundial transporta-nos inevitavelmente para o exemplo europeu que acabou por servir de cobaia na materialização de uma ambição semelhante, mas em menor escala.

Já existiram métodos transacionais bastante diversificados no decorrer da história humana, desde conchas a paus de madeira, sempre se procurou uma metodologia abstracionista cujo significado comum atribuído permitisse facilitar as trocas comerciais das respetivas sociedades preterindo assim a troca direta de bens, pois este processo revelou-se desde cedo consideravelmente desapropriado, basta ilustrar com o exemplo simplificado de alguém na criação de gado confrontado com a necessidade de adquirir 1 litro de azeite a um comerciante de uma aldeia vizinha. Naturalmente que um dos seus animais vale significativamente mais que a quantidade de azeite pretendida e acrescentar garrafões de azeite revela-se excendentário para o criador que somente precisa de 1 litro. Soluções como a divisão do animal de forma a alcançar algum tipo de concordância desconsidera a custosa criação de gado, pois são bens animais perecíveis e incomparáveis à despesa no cultivo do azeite, logo a dificuldade envolvida neste tipo de transações e a falta de incentivos para proporcionar o crescimento e armazenamento de riqueza faziam com que a economia se limitasse a pequenas comunidades e aldeias autossuficientes. Estas comunidades continuam a representar os alicerces da economia moderna, porém fizeram muito pouco para a melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos, pois a necessidade premente e a exigência de uma certa polivalência técnica na produção de bens essenciais impossibilitaram especializações inovadoras e tecnológicas, não havendo por isso cientistas ou engenheiros devido à urgência de assegurar as necessidades prioritárias. Esta última observação merece a concludente afirmação que a inovação financeira é tão preponderante quanto a inovação técnica, nem que seja pela sua relação indissociável. 

Estas tipologias de adversidades são conhecidas como fricções, e se a eventualidade de ir a um determinado estabelecimento desacompanhado de dinheiro físico para somente chegar à caixa e ser informado que o multibanco não se encontra operacional for familiar ao leitor, pois fique sabendo que está a experimentar este fenómeno. Fricções existem em todo o tipo de transações económicas, o ouro inicialmente aliviou muitos destes problemas, seguido do dinheiro fiduciário sendo atualmente o sistema financeiro eletrónico quem nos ameniza este esforço, no entanto, semelhante à indisponibilidade do criador de gado na materialização da hipotética transação a um comerciante de uma aldeia vizinha devido à dificuldade inerente, também ocorre uma certa relutância das pessoas singulares e coletivas na execução de trocas internacionais devido à complexidade intrínseca nestas relações financeiras, o que por sua vez impede por variadas vezes a comunicação comercial suscitando preferências na autossuficiência. 

Tal como comerciantes autossuficientes também os países totalmente autossuficientes assumem uma posição privilegiada, mas assim como nas comunidades referidas anteriormente, a ausência de especialização reduz o potencial de austeridade. O exemplo onde imediatamente se verifica esta particularidade surge na Europa, precisamente por ser uma área concentrada de economias altamente desenvolvidas e indústrias independentes.  Os países europeus que quisessem negociar entre si, bem como partilhar talento humano ou mesmo montar linhas de produção e fornecimento logístico com outro país do continente europeu antes de 1999 teriam inevitavelmente de conceptualizar os riscos associados.

Recorrendo novamente ao exercício hipotético, suponhamos que uma fábrica de automóveis na Alemanha emitira um pedido de 10000 motores a uma fábrica italiana. Primeiramente surgia a necessidade de esclarecer qual a moeda utilizada na transação, muito provavelmente seria utilizada a lira italiana atendendo ao facto de que a fábrica italiana está a vender e a alemã a comprar. Elucidado este momento determina-se a importância do produto solicitado, onde ambas as partes convergem no montante de 1 milhão de liras pelos respetivos motores – de forma a preservar a simplicidade do exemplo vamos afirmar que a taxa de câmbio de ambas as moedas é: 1 lira italiana equivale a 1 marco alemão. Os motores passados dois meses encontram-se devidamente montados e a fábrica italiana acomoda as exigências de envio, porém surge um problema, o marco alemão nesse momento reduz significância, valendo nesse momento apenas meia lira italiana devido à falência de um importante banco alemão. Este acontecimento implica que a fábrica alemã terá de pagar duas vezes mais o valor acordado inicialmente, pois deixou de existir concordância na linguagem cambial.

As empresas dispostas a negociar com corporações estrangeiras precisam de ser eloquentes na compreensão e gestão de risco e é por isso que elas asseguram na FOREX a viabilidade dos seus negócios com a aquisição de derivativos (Derivativo é um contrato mútuo no qual se estabelece um valor económico derivado do seu valor temporal (pagamento futuro) baseado num ativo base como referência (“underlying”). O ativo base pode ser um título financeiro (ação, obrigação, etc.), um valor financeiro (índices, juros, classificação de crédito, etc.) ou um valor materialista (matéria-prima, divisas, commodity, metais nobres, etc.). Isto não apresenta uma contrariedade constrangedora para uma grande corporação, mas para a realidade de uma PME já se revela uma dor de cabeça a evitar, resultando numa preferência por motores desenvolvidos na Alemanha, mesmo que a qualidade não seja equiparável ao motor produzido na fábrica italiana.

A introdução do euro eliminou estes embaraços tornando possível a compra de motores italianos, peças exteriores francesas e montagem em Espanha a um produtor automóvel alemão, ficando quase tão simples como fazer negócio no próprio país já para não falar da mobilidade profissional consequente, pois facultou às corporações europeias uma maior abrangência na pesquisa de talento especializado, algo que fica devidamente elucidado nos consideráveis 4% de europeus que vivem e trabalham fora do país de origem.

Numa primeira análise percebem-se as vantagens imediatas deste tipo de convergência, redução de fricção nas transações, melhoria na qualidade de vida, aumento de produção e negócios mais eficientes sem inconveniências na tradução monetária, mas obviamente que existem preocupações que não podem ser negligenciadas. A primeira das quais é a corrente crise no controlo da dívida europeia devido a empréstimos irresponsáveis a determinados governos, empresas e indivíduos de certos estados membros. Países como a Grécia e Portugal ainda estão a sentir os impactos da crise financeira global que ocorreu há 12 anos e é evidente que isto são más notícias para as restantes nações da união europeia cujas políticas económicas e financeiras não foram conduzidas com idêntica irresponsabilidade, uma vez que além de partilharem a mesma moeda, também estão “acorrentados” uns aos outros nos mercados financeiros internacionais.

Se a Alemanha eventualmente precisasse de pedir financiamento emprestado para desenvolver novas infraestruturas, seria previsível que inúmeros investidores, considerando o rating AAA atribuído, se aproximassem com a intencionalidade de conceder o empréstimo requestado, porém o euro não é tão estável quanto a Alemanha daí a possível hesitação por parte dos investidores relativamente à incerteza se a moeda na qual emprestam o dinheiro valerá alguma coisa assim que o empréstimo for pago. Isto significa que a Alemanha precisaria de recorrer a outra moeda como por exemplo: dólares, o que constituiu um péssimo negócio ou alternativamente oferecer aos investidores uma taxa de juros mais alta para compensá-los pelo risco, o que também representa um negócio pouco melhor. A Alemanha, sem ter propriamente culpabilidade foi arrastada para uma situação desfavorável devido ao desempenho insatisfatório de um outro “membro da sua equipa”.

O posicionamento da Grécia, por mais estranho que possa parecer, é igualmente constrangedor e desfavorável. Normalmente um dos primeiros efeitos quando um país enfrenta dificuldades financeiras é precisamente a redução do valor da sua moeda, significando que as suas exportações fiquem artificialmente mais baratas, o que por sua vez acaba por tornar o país mais competitivo e convidativo para turistas. Os benefícios de uma “moeda flutuante” (free-floating currency) tende a autoestabilizar um país quando esta está a atravessar problemas, mas obviamente que a Grécia está enlaçada no euro, portanto este desfecho não é exequível, as férias na Grécia continuam dispendiosas como sempre e as suas exportações são absolutamente esmagadas pelas exportações alemãs.

Talvez a analogia mais eficiente é pensar nestes dois países como dois jovens adultos a partilhar um apartamento, sendo que a Grécia acabou de perder o emprego, o que escusado será dizer, muito dificilmente se revela vantajoso num ponto de vista de sustentabilidade económica. Se eventualmente a Grécia responder prontamente a esta indefinição e começar a procurar um emprego novo, provavelmente poderá reerguer-se com relativa celeridade, só que o problema imediato é o facto de que a Grécia partilha casa com a Alemanha que ainda tem um emprego estável e bastante compensatório e faz questão de insistir para que ambos continuem a ir jantar fora, a experimentar locais novos e exuberantes e não tem recetividade alguma para que se pondere a venda da televisão para assegurar dinheiro suficiente para cobrir a restante parte da renda. A Grécia neste caso é forçada a continuar com um lifestyle que se revela incomportável simplesmente porque partilha um apartamento (moeda) com a Alemanha.

Mesmo com a demonstração simplificada desta contrariedade deflacionária e com esta associação desfavorável em determinados contextos, consegue-se argumentar que as vantagens do euro sobrepõem significativamente as desvantagens e se as oportunidades são evidentes e as adversidades se afiguram colmatáveis a longo prazo, então a plausibilidade de estender este projeto à escala global permanece indiscutivelmente auspicioso. Porém desaguamos na derradeira questão, nomeadamente quem é que iria controlar essa moeda global?

Na maioria dos países, a moeda nacional é controlada por um banco central e pelo governo federal, essas duas entidades controlam a criação de dinheiro e o cash rate aplicado (cash rate é a taxa de juros que um banco central cobra aos bancos comerciais por empréstimos). Na Europa, o euro é controlado pelo Banco Central Europeu, que consulta os bancos centrais dos respetivos estados membros de forma a agirem em concordância com o que fica estipulado. Existem também alguns países no mundo que realmente não controlam a sua própria moeda, países como El Salvador e Zimbábue que usam apenas os U.S. dólares tanto para o comércio nacional como internacional, pois revela-se mais fácil e mais estável do que imprimir e gerir a sua própria moeda. O mesmo se aplica a países como o Montenegro e o Kosovo, que utilizam o euro sem fazer parte da União Europeia. Esses países abdicam de muito controlo primeiramente porque isso significa que os seus bancos não podem operar sob o sistema de reservas fracionárias (O sistema de reserva fracionária é a permissão para que os bancos façam empréstimos e operações financeiras num valor superior aos depósitos que estão no seu caixa. Ou seja, com a reserva fracionária, estas instituições podem emprestar ou investir dinheiro que, de facto, elas não possuem naquele momento.) que a maioria dos outros bancos utiliza, o que irá por sua vez restringir severamente o acesso ao crédito nesses países.

Se uma moeda única fosse introduzida e controlada por um banco central global totalmente independente seguramente que além de induzir desconfiança também iria alarmar todos os países sem exceção. Se eventualmente o banco central global deixasse que todos os bancos de todos os países criassem dinheiro através de dívidas, não haveria nada a impedir que um país literalmente imprimisse para si próprio trilhões dessas moedas universais. Se por outro lado o banco central global restringisse totalmente esta prática, muitas empresas ficariam incapazes de obter capital e o crescimento seria severamente impactado. Este tipo de restrição também inauguraria uma nova era de mercantilismo, o que significa que os países tentariam desesperadamente manter essa moeda universal como uma reserva de energia, semelhante à maneira como o ouro foi acumulado antes da introdução generalizada das moedas fiduciárias.

O mercantilismo sucintamente é a ideia de que um país pode obter riqueza e prosperidade armazenando ouro ou, neste caso uma hipotética moeda de reserva mundial, exportando mais do que aquilo que importa (“Consideravam que a exportação é que traria riquezas e vantagens e assim começou uma competição comercial. Ocorrendo então o metalismo, que era a acumulação de moedas dentro do país e isso era considerado um sinal de que o objetivo havia sido alcançado. O único recurso encontrado então foi aplicar uma balança comercial favorável para manter o equilíbrio monetário que para eles era exportar mais e importar menos.”). Esse tipo de mentalidade significaria que os países seriam incentivados a restringir fortemente as importações. A restrição do comércio representaria literalmente o oposto do que essa moeda universal estaria a tentar alcançar, o que constituiria um fracasso atualmente catastrófico.

Para os bancos domésticos puderem criar crédito, como atualmente se faz na maioria dos países, seria necessário uma fiscalização e um controlo assertivo, deixando-nos a imediata questão:  De onde viria esse controlo? A resposta hipotética é igualmente célere, pois bastaria afirmar que viria de banco central global, mas quem é que seria o responsável por esse banco? Mesmo que fosse totalmente neutro em teoria, ainda teria obrigatoriamente algum tipo de estrutura de liderança hierarquizado, se o presidente desse banco global fosse americano, haveria preocupações de outras nações com eventuais conflitos de interesses? A resposta é quase inevitavelmente e unanimemente sim. A Europa consegue ter sucesso no seu empreendimento comum de ter uma moeda centralizada, pois todas as nações participantes são teoricamente aliadas, apesar de eventuais divergências em política externa. Se os países não estivessem alinhados ou estivessem em guerra entre si, simplesmente não haveria uma maneira justa de administrar essa moeda universalmente adotada pelas diferentes nações.

Embora indubitavelmente houvesse vantagens como as que referimos anteriormente, nada supera os benefícios da Liberdade Nacional que as nações precisaram de abdicar, logo num mundo predominado por inúmeras hostilidades geopolíticas, convinha que esse sistema nunca fosse adotado e se a história nos ensinou alguma coisa, é que haverá sempre hostilidades.

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José Coelho
José Coelho
6 meses atrás

Penso que o controlo não é necessário, para o banco adquirir um empréstimo do banco central teria de ter confiança que conseguiria vender esse empréstimo com um spread associado, pelo que o preço se iria definir com uma taxa de juro, o maior problema são as assimetrias económicas e dependermos da taxa de juro apenas para combater essas assimetrias. Esse realmente é o ponto crucial, por não existir nenhuma outra moeda concorrente o preço de obtenção de capital numa economia frágil seria insuportável, pelo que teria de ter um fiado como o FMI por exemplo. A meu ver as moedas deviam ser todas mundiais e concorrenciais entre elas, por termos associado a impressão de moeda a governos centralizamos o poder de obter capital, quando o capital deve ser investido no sentido de gerar crescimento económico, criando o ciclo infinito de dívida.