Zimpsonovich consegue visto – as autoridades soviéticas até ficaram contentes por se verem livres de um dos seus cidadãos mais estúpidos. Na semana antes da partida, Zimpsonovich leva a família ao museu da cidade. Param a apreciar um quadro que mostra Adão e Eva. Ao lado da família estão dois estrangeiros.
“Olha”, diz um com sotaque francês, “vê-se que eram franceses, estão nus e são lindos”.
“Não”, retruca o outro num sotaque inglês polido, “vê-se que são ingleses: são tímidos e modestos”
Apesar da sua religião, Zimpsonovich ainda sente algum orgulho nacional e agora não se consegue conter. No pouco inglês que fala, diz-lhes: “Estão enganados. Vê-se que Adão e Eva são russos: não têm roupa, só têm uma maça para comer, e ainda lhes dizem que moram num Paraíso.”

Dificilmente existe alguém, interessado em estudar os totalitarismos do século XX, que não conheça a lendária obra do dissidente soviético Alexander Soljenitsine, “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, que descreve as atribulações quotidianas da vida no Gulag, porém são pouco aqueles que conhecem o manuscrito apócrifo do irmão mais novo do autor, “Um Dia na Vida de Ivan Zimpsonovich”. Ben Lewis autor que inspirou este ensaio ouviu o rumor da existência de tal livro, mas nunca conseguiu deitar a mão a um exemplar. De forma a colmatar a frustração de não conseguir encontrar este livro de alegadas anedotas imaginou como seria, utilizando esta personagem, um soviético judeu muito ignorante, numa espécie de contexto de sitcom, escrevendo uma compilação de anedotas e situações engraçadas que seguramente chegariam para rivalizar com os notórios programas cómicos do Ocidente da altura, tais como, “Monty Phyton” e “Yes, Minister”.

Há ainda outra anedota com esta mesma personagem que ilustra na perfeição o distanciamento entre o pensamento teórico marxista da realidade efetiva e cínica que institucionalmente coagia os cidadãos soviéticos:

Bartski, filho de Zimpsonovich, tem aula de história, a pior disciplina para ele. O professor levanta um livro delgado e esfarrapado que tem em cima da secretária e agita-o para a turma ver. “Quem é que escreveu isto, o Manifesto Comunista?” Ninguém diz nada. Bartski está na turma mais burra. O professor olha à volta e repete a pergunta com voz firme. Nada de resposta. Pela terceira vez, faz a pergunta, mas já irritado. Bartski levanta o braço, encabulado e diz: “Eu é que não fui”. “Isso é estupidez contrarrevolucionária” diz o professor. “Vou mandar-te para casa agora!”.

O professor de Bartski, entretanto, foi para casa e conta à mulher a proeza de Bartski do dia. A mulher retruca “Talvez o rapaz esteja a dizer a verdade e não tenha sido ele”. O comentário da mulher é tão estúpido que o professor sai para beber um copo com um amigo que é agente da KGB. Conta-lhe da pergunta que fez à turma e da resposta que Bartski lhe deu. “Acreditas nisto?” pergunta ele ao polícia.
“Não te aflijas”, diz este “Dá-me duas horas que eu descubro quem é que o escreveu”.

Seguramente que ao pensar no regime soviético uma das últimas coisas a ser rememoradas é a conjuntura humorística, esta afirmação parece ser redundante, pois num sistema altamente punitivo, com censura operacional e coação praticamente imediata às mãos de uma polícia interna, dificilmente existem muitos motivos para a população se rir. Contudo, esta afirmação, mais que uma precipitação, revela-se mesmo um antagonismo. A União Soviética e as suas peculiaridades providenciaram elementos absolutamente inesgotáveis para a criação e reciclagem de anedotas.

Publicado em 2008 com o título original Hammer and Tikle – literalmente, “Foice e Cócegas”, um trocadilho para Hammer and Sikle, isto é, “Foice e Martelo” – Ben Lewis consegue emergir vários exemplos para demonstrar algumas teses que tratam das interfaces discurso-poder, ainda que esse não seja o foco do trabalho de Lewis. Durante toda a leitura, fica evidente como o humor pode ser considerado como uma prova contundente de várias teses discursivas, como, por exemplo, a interdiscursividade e, sobretudo, de que textos anedóticos ilustram a linguagem, no seu caráter discursivo, como uma arena de vozes, um verdadeiro campo de caráter bélico marcado por posicionamentos controversos.

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Foice e Martelo – Ben Lewis

Este livro tem nove capítulos que acompanham o desenvolvimento e a sucessão dos diferentes líderes soviéticos, analisando as anedotas da época e os assuntos mais prementes nos respetivos momentos desde a escassez económica aos caprichos do líder.

No primeiro capítulo “O riso sob o regime de Lenine” o autor demonstra como uma certa tradição literária funcionou, ainda na Rússia czarista, como solo para que frutificassem os primeiros textos a satirizar o governo logo após a Revolução. Para fechar o capítulo, o autor após explorar esta relação conflituosa entre comunismo e literatura, apresenta uma piada sobre o poeta Maiakovski, importante entusiasta do regime. Mesmo depois do seu suicídio, já desiludido com os rumos da Revolução Vermelha, nem mesmo ele escapou às línguas afiadas que, em surdina, cochichavam:

Quais foram as últimas palavras de Maiakovski antes de cometer suicídio? “Camaradas, não atirem!”

O futurista Vladimir Maiakovski – Comunidade Cultura e Arte
Vladimir Maiakovski

Neste primeiro capítulo as piadas mais proliferas fazem referência às promessas utópicas tão divorciadas e desconectadas com as adversidades do povo, bem como a sua perplexidade perante as ideias e ambições comunistas.

Uma velha camponesa está de visita ao jardim zoológico de Moscovo, onde vê um camelo pela primeira vez na vida. “Oh meu Deus”, diz a velhota, “vejam só o que os Bolcheviques fizeram àquele cavalo”.

A noção de um cavalo se tornar num camelo alude à transformação económica prometida pelos Bolcheviques e sugere, profeticamente, a inutilidade dos grandes projetos industriais.

Em dezembro de 2017, Lenine instou publicamente a uma “guerra até à morte contra os ricos”.  As famílias abastadas foram obrigadas a partilhar as suas mansões com famílias pobres – era costume as primeiras passarem para a ala da criadagem e os novos habitantes ficarem com as melhores comodidades. Nas ruas, aristocratas falidos varriam os passeios ou vendiam fósforos para sobreviverem. No campo, os camponeses tiravam as terras aos proprietários ou definiam as suas próprias rendas. Os soviéticos locais eram encorajados a inventar impostos para os ricos. Esta realidade foi brilhantemente exposta no romance “Doutor Jivago” de Boris Pasternak e posterior adaptação para o cinema por David Lean.

Como a CIA turbinou "Jivago" | Eu & | Valor Econômico
Imagem alusiva ao filme de David Lean, adaptação do romance de Pasternak: “Doutor Jivago”

O débil sistema legal czarista desapareceu, em seu lugar ficaram os tribunais do povo dos Bolcheviques, em que as leis e penas eram inventadas ad hoc por multidões de aldeões e funcionários soviéticos. As terras e propriedades da Igreja foram confiscadas. Num despacho secreto, Lenine escreveu que “quantos mais membros da burguesia reacionária e do clero matarmos, melhor”.  

Quando os camponeses viram as novas moedas de prata que o Governo usava para comprar a produção agrícola em 1922, até se benzeram. “Porque é que se estão a benzer?” pergunta o pároco da aldeia. “O dinheiro é soviético”.
“Sim, mas a prata é da Igreja”.

Privada dos incentivos do mercado, a economia soviética ruiu. As empresas nacionalizadas eram supervisionadas por uma burocracia que quadruplicou de tamanho entre 1917 e 1921, chegando a ter 2,4 milhões de funcionários.

Um inspetor está numa fábrica a fazer uma inspeção e dirige-se a um operário: “O que produz aqui?”
“Nada”.
“E o que você produz aqui?”, pergunta ele a outro.
“Nada”.
“Escreve no relatório: “O segundo operário pode ser despedido para não haver duplicação desnecessária”.

As anedotas ridicularizavam a nova ideologia e expunham as “verdades” involuntárias contidas no novo catecismo político, a redefinição de normas para esconder fracassos e o sonho de que o comunismo se espalhasse como um rastilho de pólvora pela Europa.

Um judeu a falar com um amigo: “Eu e o meu, Moisés, estamos muito bem. Moicha trabalha no Comintern a fazer de Comunista da África negra e eu fico no Kremlin, no topo da torre sineira de Ivan, o terrível, à espera de tocar o sino pela Revolução Mundial”.
“Bem, deve ser um trabalho muito monótono, à espera da Revolução Mundial” comenta o amigo.
“Ah, pois, mas é trabalho para a vida toda.”

No capítulo intitulado “Estaline e o sorriso Sarcástico”, o autor apresenta uma série de anedotas a respeito do ditador, que indicam uma estrutura binária a caracterizar um humor peculiar: o reconhecimento irónico da violência da sua dominação seguida da conclusão da sua magnanimidade.

Estaline discursa numa assembleia de fábrica. “O que mais prezamos na União Soviética é a vida humana”, diz ele.
De repente, alguém tem um ataque tosse. “Quem está a tossir?”, pergunta Estaline.
Silêncio.
“Muito bem, chamem o NKVD”, diz o ditador. A polícia política de Estaline, irrompe na sala e metralha a assistência. Pouco depois, apenas sete operários se mantém de pé. Estaline pergunta de novo: “Quem tossiu?” Um dos sobreviventes levanta a mão. “Está com uma terrível constipação camarada”, diz Estaline. “Pegue no meu carro e vá já para o hospital”.

Ainda nesse mesmo capítulo, uma indagação que Lewis faz, sugere a constituição circular entre enunciados e enunciação: “Como se poderia interpretar o facto de que Estaline se ria do mesmo tipo de piadas que os seus inimigos murmuravam? O problema é que ninguém sabia o que tinha vindo primeiro, as piadas cruéis de Estaline ou as piadas sobre o cruel Estaline”. Este terrível período (até à morte de Estaline) ficou profundamente marcado por aquilo que se pode chamar de “piada de cadafalso”, aquele tipo de humor que, baseado no riso da própria desgraça e rebaixamento, numa perspetiva freudiana, funciona como uma espécie de defesa psíquica.

Efetivamente a partilha de piadas e o exercício recorrente de fazer rir, desconsiderando o contexto catastrófico e a ausência de qualquer tipo de resolução, foi uma atividade prolífera num período caracterizado por tão pouca esperança, mesmo com o risco associado ao humor clandestino, pois Estaline enviava para o Gulag quem ousasse contrabandear anedotas.

Dois reclusos do Gulag conversam sobre o motivo da sua situação. “Estou aqui por preguiça”, diz um.
“O que queres dizer com isso? Não compareceste ao trabalho?”, pergunta o outro.
“Não. Estive com um amigo a contar anedotas a noite toda e achei que me podia ir deitar e denunciá-lo de manhã.”
“Porquê a preguiça?”
“Porque ele denunciou-me nessa mesma noite.”

Este amplo espectro interpretativo na dualidade relacional entre humor e poder que o autor continua a explorar nos capítulos sequentes, alumiam uma relação subentendida que relaciona humor e subversão, relação essa que pode estar intimamente associada a uma das três grandes teses sobre humor que este livro apresenta:

  • uma tese minimalista, isto é, o humor como forma de aliviar a pressão e defesa psíquica, referida anteriormente.
  • uma tese maximalista, ou seja, o humor como ato revolucionário, no sentido de ir minando gradualmente o regime.
  • Uma tese negacionista, que atribui ao hábito de contar piadas “a falsa e ilusória impressão de estar a lutar contra o sistema”

Evidentemente que as anedotas comunistas não foram a única arma de resistência que os cidadãos soviéticos usaram para derrubar o comunismo. Essa era a fantasia dos emigrantes soviéticos, combatentes da guerra fria e alguns líderes e comunicação social do ocidente. No entanto, também não foram meramente a expressão de opinião pública sem influência e historicamente irrelevante que certos historiadores e teóricos do humor alegam.

Havia dois tipos de humor no comunismo. Anedotas oficiosas, clandestinas, populares, anónimas, vocacionadas para descrever as falhas e os crimes do comunismo, ao passo que o humor oficial, que abrangia as revistas satíricas, o cinema e os cabarés, tentava usar a sátira para conquistar o povo. Cada tipo de humor tinha espias, agentes duplos ou simples céticos nas suas fileiras. Muitas das pessoas que contavam anedotas apoiavam o comunismo, usavam-nas para aligeirar os problemas e não para condenar o sistema. Entretanto, do outro lado muitos dos satiristas profissionais queriam usar a sátira para realizar mudanças económicas e políticas no sistema soviético. Apesar da composição incerta dos dois lados, travou-se uma guerra entre estes dois tipos de humor, durante toda a história do comunismo.

Estaline, Kruchev, Brejnev e Gorbachov estão num comboio. De repente este para. Estaline, furioso, abre a janela. “Porque é que parámos?” vocifera “matem o maquinista.”
Kruchev interrompe-o: “Não, reabilitem o maquinista.”
Brejnev passa para a janela e fecha as cortinas “Tenho uma ideia melhor – vamos ligar o gramofone, abanar-nos de um lado para o outro e fingir que o comboio está a andar.”
Por fim Gorbachov diz: “Camaradas, camaradas, vamos sair todos e empurrar.”

Ao contrário de outras ideologias comumente reconhecidas como, por exemplo, capitalismo, imperialismo, fascismo e fundamentalismo, o comunismo foi inerentemente “anedótico” devido a uma combinação de fatores únicos. A ineficácia das teorias, a mesquinhez da propaganda e a ubiquidade da censura foram igualmente importantes para a fertilidade humorística. A crueldade dos métodos interagia com o sentido de humor do povo a quem ela era imposta. A centralização do poder político e económico nas mãos do estado e a tentativa deste de dirigir atividades artísticas traduziam-se no facto de qualquer anedota crítica da vida numa sociedade comunista ser de facto sobre o comunismo. Todos estes aspetos criaram o humor inato e inalienável do comunismo, a maior realização cultural comunista.    

Esta observações concludentes revelam ser material de reflexão, especialmente pertinente na conjuntura atual, pois ocorrem situações terrivelmente semelhantes nas arquetípicas “terras prometidas” que incluem as metanarrativas tecnológicas no século XXI, nomeadamente uma alegada retificação de linguagem e validação factual, bem como uma suscetibilidade bastante frágil a justificar uma coação praticamente imediata.

 Num cenário onde um futuro global se desvela inevitável, talvez seja recomendável aguçar o sentido de humor e reciclar estas anedotas, contextualizando-as com a histeria coletiva e a magnanimidade dos senhores em Davos.

Um pessimista aprende chinês, um otimista ainda aprende inglês, um realista aprende a usar uma AK-47

Resta agora a esperança que todo este artigo não seja considerado como desinformação.

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