“WHAT HATH GOD WROUGHT?”

Estas foram as primeiras palavras enviadas através da recém-inventada máquina de telégrafo elétrico em maio de 1844. Esta mensagem involuntariamente demonstrou-se profética. Pois as tecnologias de comunicação que sucederam o telégrafo, desde o telefone, ao rádio, à televisão, aos computadores, à Internet, e agora aos smartphones e às redes sociais, alteraram radicalmente o tecido da sociedade.

Embora se afigurem indubitavelmente como feitos notáveis da engenhosidade humana, estas tecnologias revelam-se uma espada de dois gumes. A comunicação é mais fácil do que nunca, mas também se revela igualmente engrandecida a capacidade dos governos e das empresas de nos monitorizarem e controlarem. Os meios de comunicação e os “gatekeepers” pedagógicos de outrora foram irremediavelmente enfraquecidos pela ascensão da Internet e dos meios de comunicação social – o que representou uma bênção e uma manifesta vitória para as mentes mais curiosas – todavia estas tecnologias estão também a ser utilizadas para nos manipular através da censura e do recurso desenfreado de propaganda. E, embora crie novas possibilidades metodológicas para a forma como trabalhamos, aprendemos e nos entretemos, estas tecnologias têm um lado viciante que promove distúrbios de ansiedade, conduzindo irremediavelmente a um desperdício existencial.

Neste ensaio pretendemos explorar como a utilização destas tecnologias, mais especificamente a utilização das redes sociais, está a alterar a resposta providenciada quanto interiorizada a questão existencial fundamental, nomeadamente: “Quem sou eu?”.

A nossa resposta a esta pergunta, ou a história que contamos a nós próprios, forçosamente dá forma à nossa identidade ou uma espécie de autoconceito. Fornecendo responsividades relativamente às abordagens adotadas perante os desafios da vida, aquilo que acreditamos ser capazes, como tratamos os outros, o que valorizamos e mesmo como percepcionamos o mundo, todos somos inevitavelmente influenciados pelo nosso autoconceito, ou como escreve o psicólogo Michael Mahoney:

“Como um projetor espontâneo de diferentes formas e frequências de luz, [o nosso autoconceito/self] constringe e constrói formidavelmente os reflexos das suas próprias peças constituintes. É um navegador ou escultor sempre presente, mas invisível numa viagem que irá durar toda a vida…”
Michael Mahoney, Processos de Mudança Humana

Michael J. Mahoney, PhD, é Professor de Aconselhamento Holístico na Universidade SalveRegina em Newport, Rhode Island e Distinguished Consulting Faculty no Saybrook GraduateSchool and Research Center em San Francisco.
Processos humanos de mudança combina filosofia, biologia evolucionária e psicologia do desenvolvimento e cognitiva, fornecendo uma descrição impressionante do construtivismo, tanto no que se refere à teoria como a aplicação aos problemas reais dos indivíduos

A saúde ou doença de uma sociedade é um subproduto emergente da saúde ou doença dos autoconceitos das pessoas que residem na respetiva sociedade. Uma sociedade repleta de indivíduos com fracos autoconceitos, ou seja, autoconceitos receosos da novidade, desamparados, assolados pela ansiedade, atormentados por carências lesantes na autoestima e sem autossuficiência, só pode constituir uma sociedade doente.

“Porque uma coisa é necessária: que um ser humano atinga a satisfação consigo mesmo…só então é que um ser humano se revela tolerável e digno de contemplação. Quem estiver insatisfeito consigo próprio está continuamente pronto para a vingança, e nós outros seremos as suas vítimas…”.
Nietzsche, The Gay Science

O nosso autoconceito encontra-se em contínuo desenvolvimento e é o produto resultante de variados fatores, incluindo a nossa educação familiar, escolaridade, biologia, ambiente, relações interpessoais e experiências intrapessoais. Porém, um dos fatores mais preponderantes na formação do nosso “eu” é o mecanismo predominante de formação da identidade da nossa sociedade. Para compreender o que é um mecanismo de formação da identidade, vamos examinar os dois mecanismos que precederam a ascensão dos meios de comunicação social, nomeadamente a sinceridade e a autenticidade.

A sinceridade prevaleceu no Ocidente até há algumas gerações antecedentes e baseava-se na ideia de que a própria identidade estava intimamente ligada a um conjunto de papéis sociais. Estes papéis não eram escolhidos pelo indivíduo, mas atribuídos a ele ou ela pela família e pela comunidade. A identidade de uma pessoa surgiu então na tentativa de desempenhar estes papéis de uma forma sincera.

“Em épocas anteriores, a identidade era tipicamente atribuída pelos papéis sociais em que se nascia. Juntamente com o nascimento, vinha não só o género, mas também a identidade tribal ou étnica, a classe social, a profissão, e a religião”
Hans-Georg Moeller and Paul D’Ambrosio, You and Your Profile

Paul J. D'Ambrosio é professor associado de filosofia chinesa na Universidade Normal da China Oriental, onde também é bolseiro do Instituto do Pensamento e Cultura Chinesa Moderna, e reitor do Centro de Investigação Intercultural.
Hans-Georg Moeller é professor de filosofia na Universidade de Macau.
Este livro argumenta que o perfil marca uma mudança epocal no nosso conceito de identidade e demonstra porque é que isso é importante. Você e o Seu Perfil combinam teoria social, filosofia e crítica cultural para desdobrar uma exploração da forma como viemos a experimentar o mundo.

Nos séculos XIX e XX, uma maior mobilidade social e mais igualdade de oportunidades desencadeou uma nova liberdade de autoexpressão. Os papéis sociais pré-determinados de classe, género, religião e etnia diminuíram em relevância e o mecanismo de formação da identidade da sinceridade foi substituído pela autenticidade. Com o conceito de autenticidade um indivíduo descobre-se, realiza-se ou cria a própria identidade e assim a formação da identidade torna-se uma tarefa individual. Para algumas pessoas isto afigura-se como uma oportunidade, uma vez que desbloqueia possibilidades e potenciais que forçosamente se revelam atrofiados com a expectativa de conformidade face os papéis sociais pré-determinados, no entanto, para outros revela-se um fardo, pois com a liberdade de autoexpressão surge a responsabilidade pelo “eu” criado.

Contudo algo peculiar ocorreu com a ascensão das redes sociais: muitas pessoas estão a regressar a um mecanismo de formação de identidade que se assemelha à sinceridade, um mecanismo de formação de identidade que Hans-Georg Moeller e Paul D’Ambrosio em “You and your profile” denominaram profilicidade. Tal como a sinceridade, a profilicidade é orientada em detrimento do “outro”, estando por isso inevitavelmente dependente das reações e reatividades de uma audiência. Com a sinceridade, a família e a comunidade de uma pessoa são a respetiva audiência que julga o quão sinceramente, ou corretamente, se desempenha os papéis pré-determinados. Com a profilicidade, a audiência é um grupo generalizado de pares constituído por centenas, milhares ou mesmo milhões de utilizadores nas redes sociais e esta audiência desempenha um papel um pouco diferente do que sob a sinceridade: não só a audiência julga a identidade que se forma, mas também ajuda a moldar os próprios papéis que se esforça por desempenhar. A profilicidade implica a criação de perfis nos meios de comunicação social através da exibição seletiva de imagens e outras informações, ou de uma forma mais passiva apenas observando os perfis de personalidades admiradas, recorrendo posteriormente a esses perfis idealizados como os respetivos papéis a desempenhar na vida real. Ou como Jeremy Weissman explica em “The Crowdsourced Panopticon”:

“. . uma permuta simultânea ocorre entre as duas entidades, os nossos (perfis) digitais e o nosso “in-real-life self”. À medida que transmitimos retratos idealizados do nosso “eu” na vida real para o território virtual, vamos ajustando o nosso “eu” na vida real de modo a obter a aprovação popular. A certa altura, o nosso “in-real-life self” e os nossos (perfis) digitais praticamente se fundem simbioticamente”.

Por detrás dos ecrãs omnipresentes dos nossos computadores portáteis e smartphones, um público digitalmente ligado em rede cresceu rapidamente mais do que a população de qualquer nação na Terra. Em frente aos dispositivos de gravação omnipresentes que saturam as nossas vidas, os indivíduos são hiper-expostos através de uma emissão online mundial que encoraja o público a ver, julgar, avaliar e classificar a vida das pessoas.
Jeremy Weissman recebeu o seu doutoramento pela Universidade da Carolina do Sul. A sua investigação incide sobre as implicações éticas, legais e sociais das tecnologias emergentes, com particular ênfase na erosão da privacidade através de novas tecnologias de informação e comunicação omnipresentes.

A formação de uma identidade através do mecanismo da profilicidade tem sérios inconvenientes. Em primeiro lugar, promove um grau de conformidade doentio. Pois ter sucesso no mundo dos meios de comunicação social significa conformar-se profundamente, pois um perfil de sucesso é medido através de métricas como gostos, partilhas e seguidores. Mas o perfil requer não só conformidade com as preferências dos respetivos pares, mas também conformidade com os padrões estabelecidos por aqueles que manipulam os algoritmos das redes sociais, ou como Weissman escreve:

“Através do olhar sempre crescente de uma audiência online, podemos tornar-nos excessivamente pressionados, até mesmo coagidos à opinião coletiva, uma vez que o mecanismo de likes, dislikes, amigos e seguidores nos meios de comunicação social nos submete constantemente ao julgamento da multidão”

Ao promover uma hiper-conformidade, a profilicidade limita o nosso potencial devido à intrínseca tendência para a generalização, e os manipuladores dos algoritmos das redes sociais, não têm interesse em muitos elementos que compreendem e abrangem um “eu” saudável. Com a profilicidade, se destoarmos muito da regra, se formos demasiado únicos, ou se o nosso sistema de valores divergir demasiado do que é considerado aceitável, seremos evitados, envergonhados e ostracizados. Aparências, superficialidades, e a adesão aos valores da cultura popular são o que importa com profilicidade, negligenciando aspetos complexos como uma mente harmonizada, um corpo saudável e uma vida plena. Além disso, se vivemos numa sociedade doente, esta doença será incorporada nas preferências do grupo generalizado e, por isso, ao procurar a validação desta multidão, incorporando as suas preferências, fechamo-nos num entendimento enfermo na sensibilidade do “eu”.

“Se desistimos do nosso verdadeiro eu para desempenhar um papel, estamos destinados a ser rejeitados porque já nos rejeitámos a nós próprios. No entanto, lutaremos para tornar o papel o mais bem-sucedido possível, na esperança de superar o nosso destino, porém ficaremos mais enredados nele. Somos apanhados num ciclo vicioso que se continua a fechar, diminuindo a nossa vida e o nosso ser”.
Alexander Lowen, Medo da Vida

Alexander Lowen foi um psicanalista americano de orientação freudiana.
Medo da Vida - Caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo

Mas as falhas de profilicidade não se limitam ao enfraquecimento do nosso potencial, uma vez que este método de formação de identidade também promove uma rigidez nos sistemas de crença impedindo o progresso social e gerando consequentemente conflitos sociais. Para a construção de um perfil de sucesso nos meios de comunicação social é fundamental a exibição da virtude através do apoio aos valores morais da audiência online. Ao contrário dos tempos passados em que a virtuosidade era exibida através de ações ou declarações verbais que eram efémeras por natureza e limitadas ao alcance da família, amigos e membros da comunidade, as redes sociais criam um registo permanente das próprias posições morais para que todo o mundo as veja. Nas redes sociais, as nossas posições morais seguem-nos para o futuro com uma tenacidade até então desconhecida para a maioria das pessoas. Fatidicamente verificamos que mesmo quando disponibilizados factos, informações ou experiências que refutam as narrativas utilizadas, muitas pessoas recusam-se a corrigi-las, pois isso equivaleria a negar um aspeto importante da sua identidade construída nas redes sociais, ou como Moeller e D’Ambrosio explicam:

“A identificação com a causa torna-se tão central e primária [em profilicidade] que, estranhamente, prefere-se a notícia de que o problema seja realmente tão mau quanto se receia – uma vez que isto afirma o valor da causa e, portanto, da sua identificação com ela. Se as alterações climáticas ou os direitos civis deixassem de ser um problema, a identidade dos que se identificam com estas causas seria minada e deflacionada. O perfil de uma pessoa – construído e mantido por vezes com uma vida inteira de esforço, e no qual se está assim profundamente investido – perderia a sua validade social e tornar-se-ia obsoleto. Quanto mais forte for a identificação com uma causa, mais o cuidado com a causa se torna também o cuidado consigo próprio”.

Sob a profilicidade, a procura da verdade deu lugar à manutenção das identidades e esta é uma receita idílica para uma sociedade polarizada. Para piorar a situação, com os algoritmos dos meios de comunicação social a serem manipulados por empresas tecnológicas de forma a servir poderosos interesses institucionais, muitas pessoas não conseguem depreender que as posturas morais da cultura popular são meras posturas que promovem as agendas das empresas e governos corruptos. Mas os impactos sociais das tecnologias de comunicação modernas são ainda mais profundos do que isto, pois estas tecnologias podem estar a conduzir-nos para as condições distópicas e prisionais de um panóptico – para um mundo onde somos simultaneamente prisioneiros e guardas num estado de vigilância em massa e omnipresente.

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Marco Balbi
Marco Balbi
4 meses atrás

Excelente artigo, como sempre.
Gostava de vos ver falar mais deste tema.
Há estudos que indicam um grau de vício altíssimo às redes sociais, que activam as mesmas partes do cérebro que a cocaína.
Há ainda trabalhos que indicam que as novas gerações, criadas nestes ambientes, têm um QI menor que a anterior, o que acontece pela primeira vez na história.