Naturalmente que poderia principiar este ensaio com um empréstimo da obra tão prematura quanto brilhante de Étienne de La Boétie, amizade íntima de outro nome maior do pensamento ocidental, nomeadamente Michel de Montaigne. Porém evitando a transcrição, podemos iniciar a reflexão na origem antropológica da condição servil.

Aplicando uma eficaz navalha de Ockham facilmente se depreende que a exploração humana foi uma conclusão sequente da exploração animal. O ser humano superou a condição de mero coletor, adquirindo técnicas de produção e a faculdade de subjugar outros seres. Seja como alimento, força motriz ou outra finalidade, este modo de produção tornou-se imprescindível, porém havia limitações evidentes e frustrações igualmente óbvias.

O ser humano padece de uma condição igualmente inextrincável, nomeadamente a sua descomedida ambição, pois este sente uma necessidade lógica de armazenar, abastecer e reservar, uma garantia para eventual superveniência que lhe pudesse dificultar a aquisição ou privar-lhe o sustento. Com este modo primitivo de produção talvez se alcançasse uma reserva, mas longe de ser estável e confortável. Para o conforto almejado seria necessário um excedente.

Desta “necessidade”, surge a ideia de se recorrer à força humana para esta finalidade, pois esta era capaz de produzir além do que consumia, e o melhor, passível de apuração das técnicas de produção.

Naturalmente que a concretização deste ensejo se afigurou difícil, seguramente que a ideia de permutar servidão por liberdade e trabalhar para outrem em vez de si próprio não terá sido pacífica. Não restava alternativa senão empregar o meio da força, ou seja, obrigar outros seres humanos a produzir o tão almejado excedente que nunca satisfaria as necessidades humanas que estariam por vir.

Durante muito tempo foi sustentada a hipótese de que alguns seres humanos na verdade eram animais, devido à semelhança no comportamento. Aqueles que não engrandeciam as suas técnicas de produção e viviam como meros coletores, eram semelhantes aos demais animais, pois, não apresentavam nenhuma capacidade de domínio sobre as circunstâncias, tampouco de prover-se para o futuro. Estes sofriam as intempéries como qualquer outra besta, não demonstrando nenhum raciocínio lógico para com o meio no qual viviam, logo, seriam animais com mera aparência humana, então, nada mais justo que também subjugá-los. No entanto, existe “um” problema neste modo de produção.

Assim como o gado confinado, o ser humano como qualquer outro animal forçado ao cativeiro, devido às condições intrinsecamente frustrantes do enclausuramento, padece de alterações nefastas ao metabolismo. Além de devidamente documentado, também se revela igualmente incontestável, que os animais criados em liberdade possuem processos metabólicos diferentes dos animais confinados, o organismo dos primeiros age normalmente enquanto os cativos, devido à quantidade de toxinas despejadas na corrente sanguínea fica inevitavelmente comprometido.  A maioria das enfermidades que afetam os mamíferos são de origem psicossomática e não exclusivamente física. De todas as maleitas conhecidas, as que não advêm de algum distúrbio psicossomático, são muito provavelmente de origem congénita, patogénica ou geneticamente transferida.

Posterior ao abolicionismo, fenómeno relativamente moderno, recorreu-se a um ardiloso sistema socioeconómico que voltou a escravizar de uma forma dissimulada e seguramente mais sofisticada. Talvez a única validade intelectual providenciada por Karl Marx se encontre na sua crítica de alienação humana originada na ausência dos meios de produção. E, de facto, este sistema vigente veio sequestrar as autonomias individuais com o seu eloquente entendimento de dinheiro como comodidade. Já muito se explorou nesta plataforma relativamente ao posicionamento pernicioso dos bancos centrais e as estratégias históricas de utilização do liberalismo para controlo sistémico e para este ensaio servem também essas elações. (Ver Money master documentário).

Além da abolição, também a emancipação feminina, mascarada com a superficial roupagem idílica, legitimou outro intuito – a imposição fiscal da outra parte populacional com capacidade ativa até então ociosa. A inserção da mão de obra feminina no mercado de trabalho de forma massiva, nada mais era que uma forma de produção a baixo custo, e, atrelada a um relevante fator que deve ser preponderado, nomeadamente, a desestruturação familiar.

O facto de que tanto o pai como a mãe passarem forçosamente a laborar fora do domicílio causou uma ausência fundamental no convívio familiar com os respetivos filhos. O “sistema” descortinando a preponderância da educação para controlo populacional, usurpou o espaço reservado à pedagogia para transfigurar o ensino numa espécie de catequizador das massas, com narrativas inquestionáveis e conteúdos falaciosamente axiomáticos.

A metodologia de ensino atual, paradoxalmente, escolástica, forma indivíduos hábeis o suficiente (por vezes até excelentes) para operar um sistema seja ele qual for, mas nunca suficientemente e epistemologicamente inteligentes para formarem um juízo valorativo próprio, e, se porventura acreditam que o fazem, muitas das vezes estão simplesmente a seguir outra proposta do sistema já arquitetado.

Escrutinando devidamente este cenário, revela-se percetível que o homem moderno vive numa condição análoga à de um escravo, já que a maioria recebe o mínimo para a sua subsistência, suficiente apenas para mantê-los vivos para mais outro dia de trabalho. Ao menos, os escravos de outrora tinham consciência da sua condição servil, os atuais não a conseguem depreender, pois as sombras da caverna moderna são infinitamente mais intensas.

Este sistema socioeconómico forjado em moldes mercantilistas, tem como primordial intento alienar as massas com frivolidades para que estas não percecionem a condição servil na qual “existem” (em detrimento de viver). Toda e qualquer possibilidade que venha fazer com que estes percebam tal condição deve ser retirada, evitando um senso crítico introspetivo que inquire aspetos essenciais da respetiva participação existencial. No corpo social atual os homens criam um simulacro, um mundo paralelo e replicante da realidade, que os escraviza apartando-os da sua real essência, moldando-os a uma ilusão antinatural criada pela imaginação humana. O homem contemporâneo não percebe a sua condição ou recusa enxergá-la, uma vez que essa aceção será lesante ao ego, pois priva-o do seu gregarismo, este último, que seria a sua suposta estabilidade, mas é justamente aquele que lhe estabelece imposições.

As constantes transformações e imposições sociais não permitem que o homem moderno possua uma identidade resultante de experiências originais, o indivíduo será moldado consoante os ditames sociais e mediáticos. A imposição ao consumo atingiu tamanha proporção que não permite às pessoas o desenvolvimento de uma personalidade ausente de influência. Este incentivo ao consumo desenfreado torna excendentária a sensibilidade crítica apurada, posicionamento este que seria um óbice à centralização de poder por parte daqueles que monopolizam a gestão de determinada sociedade. Pessoas moldadas são mais previsíveis, consequentemente, mais controláveis, quanto menos se contesta mais obtém resultados aqueles que os impõe. Todos os obstáculos à divulgação e circulação de mercadorias, seja geográfico ou humano, deve ser eliminado viabilizando o consumo, pois este é o principal pacificador de massas. É dentro deste universo lúgubre que se tenta a todo custo acumular o maior número de bens que a publicidade diz constituir a felicidade plena.

O escravo atual vive fundamentalmente numa prisão mental, não consegue distinguir aquilo que lhe é intrínseco e o que é fantasia derivada desta realidade mediatizada. As mercadorias distribuídas de forma massiva e religiosa modificam profundamente as relações humanas, ao mesmo tempo em que se difundem e reforçam os moldes do sistema controlador. O reflexo desta atitude perdurará por mais tempo que a própria tendência que a gerou, afetando diretamente as gerações futuras que seguirão os moldes impostos quase de forma dogmática, aplicando mesmo a jovial inventividade e criatividade na otimização do próprio sistema controlador.

Estes são alguns dos fatores resumidamente expostos que ilustram como o ser humano não conhece outro caminho senão a obediência, pois a vida além da caverna provoca um profundo receio e uma insegurança brutal, a infame “pesada liberdade” que serve de eufemismo para a mais angustiante ansiedade. Sendo esta almejada segurança a principal armadilha dos algozes.

Devidamente alinhavado com esta condição servil existe outra componente relevante que não se pode descurar, nomeadamente a apropriação da máxima milenar de Sun Tzu “dividir para conquistar” agregada à teoria do Caos, ou seja a ideia de que é da desordem que nasce a ordem.

Edward Lorenz é considerado o pai da Teoria do Caos, que inspirado na previsão do tempo, feita de maneira pouco precisa pelos meteorologistas, simulou no seu computador, o Royal Mcbee de cerca de 800 quilos, quais seriam as previsões do tempo do Estado onde morava, o Estado de Massachusetts, dadas às condições iniciais previstas pelo seu programa, temperatura, velocidade do vento, humidade e pressão.

Lorenz conseguiu mostrar que com essas variáveis que era possível fazer previsões do tempo, e comprovou que pequenas causas podem provocar grandes efeitos, independentes do espaço e do tempo. A teoria do “efeito borboleta”, e a popular análise: o bater de asas de uma borboleta na Amazónia pode produzir um tornado no Texas, foi o exemplo emprestado pelo cientista para desbloquear esta perceção.

Na verdade, Lorenz comprovou aquilo que o matemático francês Henri Poincaré (1854 — 1912) teria proposto quase um século antes. Pois, durante séculos, a teoria de Newton serviu como base para o ordenamento de muitas estruturas, a matemática newtoniana podia prever com exatidão eventos futuros com base em cálculos. Seguindo este raciocínio, o matemático francês Pierre-Simon de Laplace (1749 — 1827) defendia a tese da estabilidade nos sistemas, até que Poincaré, estudando os sistemas dinâmicos e as suas equações, descobriu um comportamento caótico dentro destas.

Pierre-Simon, Marquês de Laplace foi um matemático, astrónomo e físico francês, que organizou a astronomia matemática.
Jules Henri Poincaré foi um matemático, físico e filósofo da ciência francês.
Edward Norton Lorenz foi um meteorologista, matemático e filósofo norte americano.

A Teoria do Caos que na sua conceção analisou condições meteorológicas passou a ser aplicada em vários campos, como o desenvolvimento da bolsa de valores ou análise de apólices de seguros, entre outros.

A física moderna ensina que o equilíbrio universal é causado pela contraposição da energia positiva que é gasta pelo universo na sua expansão e pela energia negativa gerada pelos campos gravitacionais que mantém os sistemas planetários. Quer dizer, um embate entre a relatividade e a gravidade, na organização dos sistemas essas forças são representadas pela sinergia (que gera e aglutina) e pela entropia (que consome e dispersa).

Este também é o processo que gera o conhecimento. A energia concentra-se em locais específicos do organismo (os neurónios do cérebro) e gera a atividade psíquica.

Através dessa atividade nós vamos conhecendo o mundo em que vivemos.

E desta forma o mundo organiza-se, a lógica nasce e o que era desordem e ignorância passa a ser ciência. Surge a ordem no caos. ORDO AB CHAO.

Portanto, podemos concluir que a Evolução é a Ordem a partir do Caos. Somente assim a Ordem viria através do Caos.

ORDO AB CHAO é também uma divisa maçónica por excelência. Encontrável em todos os rituais maçónicos, ela, por si só, é explicativa dos propósitos da Maçonaria, enquanto filosofia de organização e construção de um edifício social universal. Como lema, é exclusiva do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Dentro do contexto alquímico de transmutação de toda natureza, adaptando-o aos sistemas governamentais, concomitante ao princípio Ordo Ab Chao temos o princípio Solve Et Coagula, que se consubstancia na ideia de dissolver algo para novamente reestruturá-lo.

Finalizo neste momento com o propósito de convidar à reflexão do leitor sobre a evidência do comportamento servil aliado à arquitetura intencional de gerar caos para posterior ordem. Tudo aquiesce a esta dialética, principalmente nos dias pressurosos de hoje, não fossem problemas globais apenas solucionados com soluções globais.

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