“Quando, os países que se conquistam estão habituados a viver segundo as suas próprias leis e em liberdade, há três formas de conservar a sua posse:
a primeira é destruí-los, a segunda é ir para lá viver pessoalmente; a terceira é deixá-los viver segundo as suas leis e cobrar um tributo, depois de formar um governo de poucas pessoas que conservem a sua amizade. Sendo estas poucas pessoas guindadas à sua condição de governantes pelo Príncipe, elas sabem muito bem que não se poderão manter nela sem a força e o favor daquele e que por isso, devem fazer tudo para lhe agradar.” – capítulo V  de “O Príncipe” – Maquiavel

O príncipe é Xi Ji Ping, os “governantes” são os líderes dos governos dos países, que de forma voluntária, se deixaram subjugar economicamente e politicamente pelo seu regime.
Muito dificilmente a prepotência do ideário comunista, terá alguma vez levado um Presidente Chinês a inspirar-se no excerto exposto acima da obra “O Príncipe” de Maquiavel, como instrução de conquista geopolítica. Sendo que, para estratégia de conquista, o nacionalismo comunista gravitará mais à volta da “Arte da Guerra” de Sun Tzu. Não obstante esta observação inicial, é contudo impossível não verificar que o atual líder Chinês personificou com grande exatidão o maquiavelismo exposto na  terceira via de conquista sugerida por Maquiavel.

Há 20 anos atrás, perante a legítima preocupação ética e implicações práticas acerca da cooperação com uma nação tirânica, foi frequentemente propagado ad nauseam, que a melhor forma de democratizar um país como a China seria através da normalização de relações comerciais. 

Não obstante a brutal repressão do governo chinês, às manifestações de 1989 em Tiananmen e as recorrentes manifestações populares decorridas nos anos seguintes, o sentimento de revolta popular juntamente com as reformas económicas de 1979 e gradual aumento de liberdade económica individual no país, deu à vista ocidental a perspectiva de eventuais ventos de mudança na postura de governação política do regime chinês.

Não ocorreu aos líderes mundiais do ocidente que a história do séc. XIX e XX deixou também cicatrizes profundas no País do extremo oriente, que fruto dessas marcas teria ficado presente até então o sentimento de orgulho nacional ferido no imaginário colectivo chinês; ressentido por aquilo que foi conhecido como o “século da humilhação” (1839-1939), que iria configurar a mentalidade chinesa . A noção de memória histórica da humilhação, da perda de influência do País na região fruto da subjugação da China ao imperialismo Japonês e Ocidental; faziam das potências ocidentais e do Japão, símbolos de um passado negro, do qual a China só poderá fazer a sua catarse, assim que os superasse a nível de influência económica e geopolítica. Tal humilhação, na mentalidade coletiva chinesa, só havia sido interrompida com a expulsão destas potências após a II Grande Guerra e o início da República Popular da China em 1949.
A educação ideológica através da campanha de educação patriótica lançada em 1991 pelo partido comunista chinês, inculcou ainda mais no espírito chinês o orgulho nacional, consciente da sua “superioridade cultural”, saudoso da grandeza histórica do passado e sedenta de uma nova hegemonia, legitimada pelo sentimento de embaraço e humilhação provocadas pelos seus inimigos históricos.

Independentemente da devida reflexão e contextualização histórica e cultural chinesa, após alguns impasses, assim aconteceu a adesão da China à Organização Mundial do Comércio em 2001…não as reformas democráticas que foram palpitadas.  
No mundo ocidental temos a prepotência de achar que independentemente da sua diferença cultural e histórica, o resto do globo quer ser como nós, o “mundo civilizado”, das democracias liberais. A China soube aproveitar-se de tal ingenuidade e arrogância do ocidente e adaptou-se; com a implementação das reformas económicas de Deng Xiaoping em 1979, a China abandonara a economia de modelo centralizado e evoluiu para uma oligarquia comunista com uma economia socialista de mercado, um híbrido de cariz capitalista mas centralizado, que consequentemente catapultou a China para a 2ª maior potência mundial. O PIB da China em 1980 era abaixo de 74 biliões€, hoje é acima de 12 triliões (FMI 2019), registando-se como o maior crescimento económico de sempre num espaço tão curto de tempo.

Passados 20 anos da adesão da China à Organização de Comércio, todos os países ocidentais mantêm relações comerciais com um governo autocrático, que podemos dizer com toda a certeza, não tem nenhuma perspetiva em fazer qualquer espécie de concessões de reforma democrática. Em detrimento de uma expectativa hipotética, que mais não passava de uma miragem, foi providenciado de mão beijada à China, tudo que esta precisava para se colocar como concorrente direto da maior economia do mundo, os EUA (em 2028 terá ultrapassado os EUA) , uma quantidade inimaginável de dinheiro ocidental foi deslocado para a China e gasto no desenvolvimento dos seus negócios estatais, através da deslocação de cadeias inteiras de produção por lá mantidas, enquanto simultaneamente decorria o processo de desindustrialização do ocidente. Mas, se à primeira vista tudo isto parece mero crescimento económico, fruto de uma competição injusta a partir da qual a China usufrui da sua vantagem “competitiva”, um olhar mais atento à ambição geopolítica da China poderá clarificar o leitor.
Desde o anúncio do ambicioso projecto da nova rota da seda, o presidente Xi tem conseguido desde então, intensificar a sua hegemonia económica através de um incremento das redes de cadeia de abastecimento, com novas rotas de transporte terrestres, marítimas e aéreas para os países da Euro-ásia e África, que no mercado globalizado precisam da China. Iniciada em 2013, a nova rota da seda é além de um plano megalómano e visionário do Presidente Xi Ji Ping, uma nova força que já desequilibrou e continuará a abalar ainda mais os alicerces de equilíbrio da geopolítica mundial. Não obstante ter desenvolvido e providenciado infra-estruturas essenciais a países sub-desenvolvidos, esta iniciativa tem-se revelado antes um fardo para os países visados, deixando-os com dívidas insustentáveis; São disso exemplos: Laos, onde a China construiu uma ferrovia de velocidade rápida que custou o equivalente a metade do PIB do País em questão.
O Sri Lanka, foi dos primeiros a candidatar-se e aceitar o empréstimo do governo chinês para construção de um porto comercial. Porém, perante a sua incapacidade financeira de pagar um empréstimo com taxas de juros tão elevadas, viu-se obrigado a ceder ao credor um novo contrato, no qual a China assumiria o controlo total da atividade portuária durante 99 anos; assim o Sri Lanka perdeu juntamente com todos os empregos provenientes da sua atividade portuária, a sua soberania. Seguiu-se a Grécia e a compra do Porto de Piréu e a França com o Aeroporto de Toulousse, assim como outras empresas estratégicas europeias, como a EDP em Portugal ou a empresa de robótica alemã Kuka. Em 2018 a China já controlava 10% da atividade portuária europeia e metade de África (antes do anúncio da rota da seda, já em 2012 a China detinha 15% da dívida externa da África Subsariana (FMI), submetendo assim os países envolvidos à sua dependência estratégica e sujeitando-os ao conveniente silêncio conivente perante qualquer contestação de atropelos a direitos humanos.

E se era verdade que assim que fosse permitido à China aderir à Organização Mundial do Comércio esta se abriria ao mundo, jamais ocorreu (ou foi omitido) às elites políticas e económicas que esta abertura, se iria traduzir num plano de expansão e domínio geopolítico à escala global, tal e qual como o dogma de expansão do comunismo assim exige.
Para Fukuyama a queda do muro de Berlim em 1989 e a consequente queda do regime soviético, traduziu-se no quebrar da linha evolutiva da disputa dicotómica: capitalismo vs. comunismo, que designou como o “fim da história e o último homem”; a partir do qual as democracias liberais saíram indiscutivelmente vencedoras e como única forma política, social e económica dominante. Não irrompeu na reflexão do filósofo, que a queda de um muro não implica necessariamente o fim de uma era, na qual as boas ideias estancaram as más de forma irreversível, num processo de evolução sem retorno; mas que a queda de uma barreira e a abertura de um país ao mundo livre pode antes significar o reinício de uma nova dicotomia com contornos idênticos: tirania, subjugação e expansionismo vs. liberdade, cooperação e soberania.
Independentemente de se acreditar num processo evolutivo em linha ou circular, em constante repetição, uma coisa é incontornável:- o que há 40 anos era uma país fechado ao mundo, é agora uma nação em expansão, a quem é estendida a passadeira vermelha onde quer que vá, que assume o palco das elites económicas mundiais, que faz a apologia acérrima do globalismo e aponta o caminho da agenda mundial.

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