O exercício racional de visitar territórios abstratos prima pela caracterização especulativa. Em praticamente todas as disciplinas de conhecimento aprimoradas através de respetivas metodologias verifica-se a intencionalidade de prever cenários futuros, de forma a atenuar eventuais adversidades ou estimular resultados.

Porém num mundo onde, como diria Albert Camus “o absurdo e a incerteza estapeiam a nossa face a cada esquina” torna-se infrutífero afirmar perentoriamente que se conseguiu consolidar uma interpretação infalível do que o futuro avizinha. O autor Nassim Taleb debruçou-se exaustivamente na aleatoriedade incomensurável que configura a realidade, adotando uma terminologia própria de forma a auxiliar a descrição de certos fenómenos impassíveis de serem ignorados por qualquer curioso, sendo irrelevante a sua área de especificidade, pois tais definições revelam-se preponderantes desde a área matemática à filosófica.

O primeiro conceito é o do Black Swan, uma metáfora para eventos altamente incompreensíveis ou improváveis. O termo “cisne negro” foi cunhado por Taleb em referência a um verso do poeta latino Juvenal, que afirmava existirem “pássaros tão raros quanto um cisne negro”. Naquela época, era suposição corrente que só existiam cisnes brancos, até descobrirem um da cor negra quando a Austrália foi colonizada, em meados do século XVII.

Para Taleb, um Black Swan simboliza um determinado evento que tem três características principais:

  • Ele é um evento imprevisível e raro apenas para quem não o previu, uma espécie de outlier, um fato extraordinário (Taleb gosta de citar o exemplo do peru no dia de Ação de Graças nos EUA, o peru acha que está tudo bem, sendo alimentado pelo dono, até ao dia em que este vem com um machado e corta a sua cabeça sem aviso prévio. O peru não sabia o que aconteceria, mas o seu dono sabia muito bem qual seria o seu futuro)
  • O evento torna-se compreensível somente após ter acontecido. Aqui, Taleb avisa que sofremos de “falácia narrativa”, ou seja, o fato só pode ser entendido de forma retrospetiva, jamais prospetiva.
  • O evento tem um impacto extremo, ainda que ele tenha sido “formado” silenciosamente e surja de maneira explícita para quem não estava preparado

Apesar da aparência premonitória de um cenário catastrófico ou de uma crise perpétua, Taleb ressalva a existência de Black Swans positivos e negativos. Surge aqui o segundo conceito nos seus livros, o facto de todos estarmos expostos à fragilidade, pois nunca nos preparamos para a incerteza de quando acontecerá ou não acontecerá um Black Swan. O oposto desta fragilidade não é o antagonismo etimológica – robusto ou resiliente, pois esta concetualização revelaria uma disposição indiferente à imprevisibilidade desses eventos que, mesmos raros, atingem a qualquer um. O que Taleb propõe como o oposto de frágil — e aqui surge o seu terceiro e talvez mais importante conceito — é o AntiFrágil, o que não só aceita a incerteza causada pelo Black Swan, mas também a deseja porque sabe que pode sair mais fortalecido com o respetivo confronto.

As nossas exposições a estes eventos ocorrem em dois domínios distintos que compõem a nossa realidade: o do Mediocristão e o do Extremistão. Estes conceitos são complementares dos referidos anteriormente, nomeadamente o conceito de Black Swan e o de AntiFragilidade. Segundo Taleb, o Mediocristão é o domínio onde todos nós vivemos e onde podemos fazer as nossas previsões, relativamente divorciadas das consequências erróneas, pois o erro terá consequências mínimas na sociedade. Já o Extremistão é o domínio dos grandes sistemas complexos e interdependentes, onde é impossível esboçar uma previsão exata, pois qualquer fator improvável poderá assumir um enorme impacto no tecido societário.

Estes fatos que ocorrem no Extremistão podem ser um Black Swan positivo ou negativo tanto para quem sofre as consequências dele como para quem as provoca, o que aumenta ainda mais o terreno de incerteza onde esses sistemas intrincados convergem. É neste ambiente instável que a obra de Taleb surge como uma meditação filosófica tremendamente significativa, sem, contudo, cair no reducionismo de querer mitigar os receios dos seus leitores a respeito do que pode e o que não pode acontecer nas suas vidas.

Ter presente a compreensão abrangente da enorme imprevisibilidade que perfuma os acontecimentos humanos, é uma das melhores maneiras de adquirir uma espécie de imunidade contra a arrogância epistémica que tão bem adorna os corredores académicos ou as castas intelectuais das respetivas comunidades. Assentar o edifício lógico na presumível ignorância permite retirar elações seguramente mais válidas, ou pelo menos antecipar validades no que se afigura pertinente estudar.

Apesar de toda esta imprevisibilidade existe uma inegável propriedade cíclica, uma certa sazonalidade nos eventos históricos que se revela demasiado notória para não ser indagada. Foram várias as personalidades que refletiram sobre as aparentes semelhanças. Pensamos imediatamente na dialética hegeliana com a sua oposição de teses, mas foi Mark Twain quem brilhantemente observou que “A História não se repete, mas rima” e é na mensagem deste aforismo que recomendo o atalho para uma obra escrita pelos autores americanos Neil Howe e William Strauss, que também são os responsáveis pela designação do termo “geração milenial” para se referir aos nascidos a partir de 1982, nomeadamente o The Fourth Turning (A Quarta Virada).

Há mais de 20 anos, Neil Howe previu que os Estados Unidos iriam atravessar uma crise que chegaria ao seu apogeu climático no ano de 2020. Esta previsão não foi um resultado concludente de um exercício premonitório, mas sim com base numa teoria controversa que esse historiador, economista e demógrafo desenvolveu na década de 1990 junto com o seu colega William Strauss.

De acordo com esta teoria, os eventos históricos estão intimamente associados com arquétipos geracionais. Cada arquétipo desencadeia uma nova era, que ficou designada por “turning”, que dura cerca de 20 a 22 anos. Estes momentos são partes integrantes de um ciclo maior nomeado de saeculum (um período aproximadamente igual ao tempo de vida potencial de uma pessoa ou, equivalentemente, à renovação completa de uma população humana. O termo foi usado pela primeira vez pelos etruscos.). A teoria afirma que após um saeculum, ocorre uma crise na história americana que é sequenciada por uma recuperação. Durante esta recuperação, as instituições e os valores comunitários são fortes.  Por fim, os arquétipos geracionais sequentes atacam e enfraquecem as instituições em nome da autonomia e do individualismo, o que cria um ambiente político tumultuoso que engradece as condições para outra crise.

Esta dupla autoral afirma que se consegue verificar um padrão contumaz nas gerações históricas examinadas que dizem girar em torno de eventos geracionais que eles chamam de turnings (reviravoltas). Eles descrevem 4 fases pertencentes deste ciclo caracterizado por estados de espírito, nomeadamente:  “The High”, “The Awakening”, “The Unraveling” and “The Crisis”

The High

Segundo Strauss e Howe, a primeiro fase é um ponto alto, que ocorre após uma crise. Durante o Alto (High), as instituições são fortes e o individualismo é fraco. A sociedade está confiante sobre onde pretende ir coletivamente, embora aqueles fora do centro maioritário se sintam asfixiados pela conformidade.

Segundo os autores, o turning mais recente nos EUA ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, começando em 1946 e terminando com o assassinato de John F. Kennedy em 22 de novembro de 1963.

The Awakening

A segunda fase é um Despertar. Uma época em que as instituições são atacadas em nome da autonomia pessoal e espiritual. Precisamente quando a sociedade está prestes a atingir o seu auge do progresso público, ocorre um cansaço coletivo e frustração devido à disciplina social, desejando por isso a recuperação de um sentimento de “autoconsciência”, “espiritualidade” e “autenticidade pessoal”. Jovens ativistas olham para o High anterior como uma era de pobreza cultural e espiritual.

O despertar mais recente dos EUA foi a “Revolução da Consciência”, que se estendeu desde as revoltas nos campus académicos e no centro da cidade em meados da década de 1960 até às revoltas fiscais no início da década de 1980.

The Unraveling

O clima predominante desta época é em variados aspetos o antagonismo direto da primeira fase (High): as instituições são fracas e estão desacreditadas, enquanto o individualismo é forte e florescente. Os autores dizem que Highs vem depois de Crises, quando a sociedade se quer unir, construir e evitar a morte e a destruição da crise anterior.

The Crisis

Esta é uma era decadentista, geralmente caracterizada por ambientes bélicos, na qual a vida institucional é destruída e reconstruída em resposta a uma ameaça à sobrevivência da nação. Após a crise, a autoridade cívica revive, a expressão cultural redireciona o seu intento comum para o propósito da comunidade e as pessoas começam a localizar-se como membros de um grupo maior, prescindindo dos tribalismos locais antecedentes.

Os autores dizem que a quarta virada anterior (The fourt turning) nos EUA começou com o crash de Wall Street de 1929 e culminou com o fim da Segunda Guerra Mundial. A Geração GI (que eles chamam de arquétipo do Herói, nascida entre 1901 e 1924) atingiu a maioridade durante essa época. Eles dizem que sua confiança, otimismo e visão coletiva simbolizavam o clima daquela época. Os autores afirmam que a Geração Millenium (que eles também descrevem como um arquétipo do Herói, nascido em 1982 a 2004) mostra muitos traços semelhantes aos da juventude GI, tais como: aumento do envolvimento cívico e comportamento coletivo desembaraçado.

Os autores dizem que duas tipologias diferentes de épocas e dois momentos característicos da idade formativa (a infância e a idade adulta jovem) consegue produzir quatro gerações arquetípicas que se repetem sequencialmente, num ritmo intervalado pelo ciclo de Crises e Awakenings. Em “Gerações” (1991), Strauss e Howe referem-se a estas quatro arquétipos como idealista, Reativo, Cívico e Adaptável. No “The Fourth Turning” (1997) eles mudam esta terminologia para Profeta, nómada, herói e artista.  Até à data, Strauss e Howe descreveram 25 gerações na história anglo-americana, cada uma com um arquétipo correspondente. Os autores descrevem os arquétipos da seguinte forma:

  • Profeta (idealista)

Gerações que iniciam as suas infâncias durante um High, vivem-se tempos comunitários rejuvenescidos e consensuais em torno de uma nova ordem social. Profetas crescem numa crescente indulgência devido ao momento posterior à época de crise, assemelham-se a jovens cruzados de um despertar, conscientes e focados na moral e princípios e emergem como anciões na orientação da próxima crise.

Profetas famosos: Abraham Lincoln e Franklin Delano Roosevelt

  • Nómada (reativo)

Gerações nascidas durante um Awakening, logo crescem num ambiente próspero em ideias sociais e vivacidade espiritual, onde jovens adultos afrontam calorosamente a ordem institucional estabelecida. Os Nómadas nãosão criados propriamente numa disposição zelosa de forma a encobrir esta tensões cíveis. Quando atingem a idade adulta tornam-se pragmáticos, assumindo posições de liderança aquando a meia idade, envelhecendo para idosos resilientes num pós-crise.

Nómadas famosos: John D Rockefeller e Jeff Bezos

  • Herói (Cívico)

Nascem depois de um Awakening e durante um Unraveling, vivem-se tempos de pragmatismo individual e autoconfiança, uma espécie de laissez-faire. Os heróis são crianças protegidas, bastante acarinhados e desenvolvem uma personalidade otimista e habilidades cooperativas, privilegiando o trabalho de equipa. Durante a meia idade podem até pecar por confiança excessiva e tendencialmente tornam-se politicamente poderosos daí serem os principais visado no sequente awakening.

Heróis famosos: Thomas Jefferson e John F Kennedy

  • Artista (Adaptável)

São as gerações cujas infâncias florescem durante uma crise, onde os tempos se caracterizam pela perigosidade do exercício de reducionismo da complexidade dos eventos sociais e políticos em favor do consenso público, instituições agressivas com práticas de coação e uma ética a exigir o sacrifício da singularidade. Os artistas também são igualmente protegidos pelos adultos devido ao temperamento social gravoso e afiguram-se jovens adultos conformistas e devidamente socializados, durante o período que compreende a média idade ocorre um processo disruptivo muito orientado na liderança por processos e tornam-se os idosos ponderados no momento posterior do próximo awakening.

Artistas famosos: Martin Luther King Jr e Theodore Roosevelt

Os autores disponibilizam ainda uma tabela onde providenciam este enquadramento geracional, uma ferramenta que bastante curiosa na interpretação de determinados momentos históricos.



O cruzamento das obras referidas revela-se especialmente interessante precisamente pela oposição entre uma disposição determinista e uma consciencialização refreada devido à prognosticada imprevisibilidade nos sistemas humanos. Este exercício de preparar os terrenos abstratos para os confrontos entre teses distintas a habitar as nossas bibliotecas, mais que recomendável é a metodologia premente ignorada por uma geração alegadamente sequiosa por disposições consensuais e vitimada pela fragilidade dos nossos tempos.

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[…] A internet é um dos principais veículos contra-culturais e é sempre célere na combatividade perante as perceções aparentemente consensuais na mainstream media e é com as peculiaridades “meméticas” que referimos anteriormente, que esta comunidade se expressa e inicia tendências completamente alheias às gerações não tão proficientes nesta fenomenologia, um exemplo claro deste ressentimento geracional foi representado com o meme “Ok boomer”, uma frase utilizada como forma de rejeição e retaliação por jovens da geração y ou z, para demonstrar aversão aos ideais de pessoas mais velhas, particularmente aos ideais da geração de baby boomers. (ver artigo referente à Strauss–Howe generational theory) […]