“Era um prazer pôr fogo às coisas, era um prazer especial vê-las a serem devoradas, enegrecidas e transformadas.” – frase inicial de Fharnheit 451 

Há autores cujas obras têm o efeito desconcertante de nos inquietar com a sua precisão quase profética. No que diz respeito à literatura distópica, rapidamente associamos os clássicos “1984” de Orwell ou o “Admirável Mundo Novo” de Huxley, como principais referências incontornáveis nesta categoria, que propiciam uma curiosidade insaciável e impactante desde o início até ao fim. Tendo recentemente lido Fharnheit 451, a obra prima de Ray Bradbury enquadra-se neste segmento de romance distópico inquietante do qual é impossível ficar indiferente.

Bradbury conta-nos a história de Guy Montag, um bombeiro cujo trabalho consiste em queimar livros e as casas / edifícios onde estes se encontrem. O autor norte americano relata uma sociedade onde a liberdade de pensamento é oprimida. O ano é 2022, a informação é monopólio da comunicação social mainstream não havendo praticamente margem para a liberdade de pensamento, a vigilância constante dos cidadãos por recurso de meios tecnológicos é norma.

Assim, que a cultura, por intermédio da censura vigente, começa a dissipar-se, o pensamento crítico e liberdade de expressão acompanham paralelamente a sua evaporação.
Montag um dia conhece a sua vizinha Clarisse, que apresenta-lhe algumas ideias que conheceu graças aos livros e relata-lhe um passado não muito distante onde as pessoas conversavam livremente. Perante tal ousadia e originalidade, Clarisse suscita em Montag estupefação, curiosidade e acima de tudo faz germinar um questionamento interior, relativamente aos livros que destrói e à sociedade em que está inserido.

 

“Ontem à noite pensei em todo o querosene que usei nos últimos dez anos. E pensei em livros e apercebi-me de que por detrás de cada um desses livros está um homem. Um homem que teve que pensar neles. Um homem que teve de fixá-los em papel durante muito tempo. E nunca antes me tinha ocorrido isso. Um homem levou uma vida inteira a anotar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e depois chego eu e em dois minutos, zás!, tudo acabado.”

Contrariamente a outros romances distópicos em que a opressão é feita por iniciativa coerciva de um governo ou ideologia em ascencão, Bradbury visualiza uma ditadura que foi feita pelas bases até ao topo, fruto da permissividade apática e até da conivência das massas estupidificadas. Tal regime narrado, para ascender ao poder aproveitou-se do crescente hedonismo, da constante procura de prazer momentâneo por parte dos seus cidadãos, do consumismo e do uso vertiginoso da tecnologia e entretenimento, para a redução da livre circulação de ideias.
Bradbury, a dada altura narra outro denominador cultural comum com sociedade real atual: a censura encapotada por um discurso politicamente correto fruto de uma hipersensibilidade generalizada, por oposição à cultura, à curiosidade intelectual, ao confronto de ideias, à procura da verdade objetiva e metafórica e à tradição. 
A dada altura, o capitão Beatty, superior hierárquico de Montag explica-lhe como o cenário hodierno tivera origem:

“Outrora os livros atraíam algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. As pessoas podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. Os filmes, a rádio e as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso como norma comum. Está a compreender?(…)
Os clássicos eram agora programas de rádio de quinze minutos, e cortados de novo para caberem num segmento sobre livros com dois minutos, acabando finalmente, por se resumirem a dez ou doze linhas numa entrada de dicionário. Estou a exagerar, é claro. Os dicionários eram para referência. Mas havia muita gente para quem o único conhecimento que tinham de Hamlet(…) se limitava a um resumo de uma página num livro que se fizera anunciar com a frase: ” Agora pode finalmente ler todos os clássicos e manter-se a par dos seus vizinhos”(…) O tempo da escola é encurtado, a disciplina é aligeirada, deixa-se de estudar Filosofia, História, línguas, até que a própria ortografia vai sendo gradualmente negligenciada até acabar por ser ignorada por completo 
(…) Vamos agora pensar nas minorias da nossa civilização. Quanto maior a população, mais minorias. Não pise os calos dos amantes de cães, dos amantes de gatos, dos médicos, dos advogados, dos comerciantes, dos cozinheiros, dos mórmones, dos baptistas, dos unitários, dos descendente de chineses, suecos, italianos, alemães, texanos, dos habitantes de Brooklyn, dos irlandeses, dos habitantes de Oregon ou do México. As pessoas neste livro, nesta peça, nesta série de televisão não representam verdadeiramente quaisquer pintores, cartógrafos ou mecânicos que possam viver em alguma parte. Quanto maior o mercado menor a margem para controvérsia: lembre-se disso! Todas as minorias, as mais pequenas e menores minorias, têm de ter o umbigo bem lavado e limpo. Autores, cheios de pensamentos perniciosos nas vossas cabeças, fechem à chave as vossas máquinas de escrever! E eles fecharam-nas. (…) E aí têm Montag: Não houve uma ordem, uma declaração, um ato de censura, nada disso! A tecnologia massificada e a pressão das minorias fizeram tudo sem qualquer ajuda.(…)
As pessoas de cor não gostam de Little Black Sambo. Queime-se. As pessoas brancas não se sentem bem com A cabana do Pai Tomás. Queime-se. Alguém escreveu um livro sobre o efeito do tabaco no cancro dos pulmões? As tabaqueiras estão preocupadas? Queime-se o livro. Serenidade Montag. Paz, Montag. Lutar é lá fora. Melhor ainda: mete-se os problemas no incinerador.”

Os excertos transcritos revelam-se particularmente aterradores, pela sua exatidão com algumas das convulsões sociais e respetivas motivações que acontecem atualmente no mundo ocidental. Tal como em Fharnheit 451, vemos actualmente em marcha uma espécie de suicídio cultural do ocidente com características similares: também este suicídio afigura-se das bases para o topo, também ele permitido graças à auto censura e apatia, à falta de sentido crítico e estupidificação das massas, também ele feito graças ao consumismo sensacionalista e desinformado de slogans e de títulos clickbait, também ele feito às custas da capitulação de quem poderia ter feito algo para o prevenir. São disso exemplos análogos: a “cancel culture”, que se verifica de variadas formas, nomeadamente:  na pressão mediática para que negócios privados não vendam determinados livros, no boicote a figuras com opiniões e visões divergentes, no vandalismo de estátuas de figuras históricas ou na exigência de derrubes destas por uma alegada ofensa (subjetiva porque se trata de um sentimento) às minorias; uma revolução cultural em marcha que para muitos se revela necessária, porque tal como Beatty explica a Montag: “Todas as minorias (…)tem que ter o umbigo bem lavado”; independentemente de ser uma figura histórica incontornável seja esta condenável ou não, de se tratar de Lincoln, do Padre António Vieira, ShakespeareBeethoven, de um obsceno anacronismo histórico ou de um mero jornalista independente, nas palavras do capitão Beatty, se ofende – “Queime-se” ou nestes casos concretos que se vandalize, destrua, remova, “repense”, cancele.

 

 

 

 Paralelamente à ditadura real crescente, Fharnheit 451 retrata uma ditadura insidiosa que tem por base a ignorância generalizada e o alegado “bem-estar comum”.
Bradbury mostra em Fharnheit 451, que os livros são preservadores de histórias, de cultura e conhecimento. Por detrás de um livro está um homem, uma figura, uma história com valor intrínseco que não pode ser higienizado em detrimento da possibilidade de ofensa ou da perpetuação de uma paz podre, sob pena de se perder os elementos essenciais que constituem uma cultura, que ligam o nosso passado ao nosso presente, que faz de nós elementos constituintes da história, que faz de nós humanos, mesmo que imperfeitos: 

 

“(…)apercebi-me de que por detrás de cada um desses livros está um homem. Um homem que teve que pensar neles (…) Um homem levou uma vida inteira a anotar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e depois chego eu e em dois minutos, zás!, tudo acabado.” 

Bradbury mostra-nos que sem história, sem cultura, sem liberdade de pensamento e de expressão, ficamos sem nada; não passaremos de niilistas imbecilizados pelo entretenimento fugaz, conformados no vício da vida facilitada pela inteligência artifical à distância de um “clique”, não passaremos de meros autómatos em forma humana desprovidos de sentido e de razão, facilmente manipuláveis; Assim como Orwell elucidou: “Quem controla o passado, controla o futuro, quem controla presente, controla o passado”.

Tendo sido escrito na altura da Guerra Fria e quando o Maccarthyismo estava em ascensão, o livro é por vezes interpretado como uma crítica à censura governamental. No entanto, uma leitura atenta deste revela que Bradbury pretendia ir mais além na narração de uma eventual distopia, nesta o autor pretendia realçar que o principal inimigo, censor e inquisidor são os próprios indivíduos. Fharnheit 451 é assim um retrato de nós mesmos, um alerta acerca da nossa própria perigosidade, a nossa ingenuidade voluntária, o nosso masoquismo culturalmente suicida perante a hipótese de “progresso pelo progresso”, a satisfação desenfreada das massas; na qual não passaremos de animais constantemente à procura de instintos e impulsos primários, impetuosamente na procura constante da libertação de neurotransmissores prazerosos, seremos nada mais do que humanos desenraizados. Bradbury tenta alertar-nos para a perigosidade destes ímpetos e para a necessidade da nossa humanização constante através da manutenção daquilo que faz de nós humanos: o nosso legado cultural e intelectual e a necessidade da sua preservação; Bradbury , tal como Orwell e Huxley realça a necessidade de consciencialização de que a liberdade morre, quando o homem abdica voluntariamente dela de mão beijada.

Fharnheit 451 é uma evocação intemporal à importância da liberdade de pensamento perante a censura instalada e a estupidificação das massas.
O clássico de Bradbury deu origem à produção da série da HBO protagonizada por Michael B. Jordan. Para quem terá lido o livro, dificilmente a versão “hollywoodesca” de um clássico desta dimensão fará jus à visão e imaginação quer do autor como do leitor, porém, se tivermos a audácia para enfrentar um mundo distópico cada vez mais plausível, visualizando-o através do ecrã, a série poderá revelar-se particularmente útil e interessante.

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