Com a evolução das sociedades, respetiva circulação de informação e acesso ao conhecimento, cada vez mais no mundo contemporâneo se tem a correta percepção da ciência como pilar fundacional da realidade objetiva. Não obstante a validade desta assunção, com demasiada frequência vemos expressões como: “consenso científico” ou “ciência estabelecida”. Porém, se olharmos para a história do pensamento científico e a evolução da própria ciência, podemos ver que apesar dos “consensos científicos” raramente falharem, a ciência não vive exclusivamente de consensos e praticamente em todos os ramos da ciência houve teorias que a dada altura foram questionadas, repensadas e até refutadas num processo, que o Filósofo e físico Thomas Khun apelidou, de “mudança de paradigma”:

“Um paradigma é pré-requisito da própria percepção. O que um homem vê depende tanto daquilo para que olha como daquilo que a sua experiência visual e conceptual o ensinou a ver (…)
A transição de um paradigma em crise para um novo paradigma a partir do qual uma nova tradição de ciência normal pode emergir está bem longe de ser um procedimento cumulativo, alcançado por uma articulação ou extensão do velho paradigma. Em vez disso, é uma reconstrução do campo de novas ideias fundamentais, uma reconstrução que muda algumas das generalizações teóricas mais elementares, bem como dos seus métodos e aplicações paradigmáticos. Durante o período de transição, haverá uma sobreposição grande mas nunca completa dos problemas que podem ser solucionados pelo antigo e pelo novo paradigma. Mas haverá também uma diferença decisiva nos modos de solução. Quando a transição fica completa, a profissão terá mudado a sua visão da área, os seus métodos e o seus objetivos.”                                                                                                                                                                      Khun, T.S. (1970), pp. 82-85

Mudança de paradigma
Thomas Khun
Thomas Khun

Apesar da aparente inverosimilhança de desafiar o conhecimento convencional estabelecido no “consenso científico”, revela-se fundamental a necessidade de espaço para se poder questionar o tal consenso, desafiá-lo e sujeitá-lo a testes; um pequeno exemplo histórico: a teoria da relatividade de Einstein que refutou a descrição da força da gravidade das leis de Newton.

 Ora, o método científico tem como base a sua divisão em diferentes métodos para aquisição de conhecimento científico:
– O método dedutivo (raciocínio lógico com base em determinadas premissas para uma conclusão);

– O método indutivo (raciocínio lógico derivado a partir da observação de um dado número de casos);

– Hipotético-dedutivo (raciocínio lógico baseado em conjeturas cujas premissas sejam provavelmente verdadeiras);

– Dialética (contraposição de ideias);

– Fenomenológico (determinado fenómeno que se revela e que merece ser estudado).

 Dos métodos, brevemente descritos anteriormente, o mais intuitivo para o leigo comum será o método indutivo, cuja base empírica a partir da observação permite fazer uma assunção da realidade com alguma objetividade. Porém, nada é perfeito e com alguma reflexão pode-se verificar as limitações de interpretar a realidade de forma objetiva, ao assumir um determinado facto como algo consumado e inquestionável, tendo apenas como critério o método indutivo que serviu de base para o alegado consenso. Claro que não quer isto dizer que não haja factos consensuais passíveis de serem aceites de forma generalizada, como verdadeiros. Por exemplo: apenas uma ínfima minoria da população mundial não acha que o planeta terra é redondo.  Quer antes isto dizer, que para se adquirir conhecimento científico tem-se de estar disposto à contestatação de qualquer facto estabelecido, pois só assim será permitido reforçar o mesmo como válido. No exemplo anteriormente dado dos terra planistas, podemos concluir que a premissa / facto: “A terra é redonda” foi submetida a contestação e escrutínio ao longo da história, e que tal permitiu corroborar a validade da afirmação ou se quisermos outro exemplo: a refutação do geocentrismo e corroboração do heliocentrismo.
 A percepção da noção de “consenso científico” ou “ciência estabelecida”, usualmente propagada em alguns casos, como por exemplo: na problemática da antropogenia nas alterações climáticas ou na necessidade de medidas de confinamento rigorosas à população toda para redução do número de infeções e mortes por covid, impossibilita a aplicação do Falsificacionismo sugerido por Karl Popper. Através do Falsificacionsimo, Popper afirma a necessidade de contestação de uma teoria para seu reforço / validação ou até refutação. A criação de barreiras à volta de determinados assuntos sob a proteção de um alegado “consenso científico”, conferem à própria ciência um carácter hermético / estanque, como um dogma, que proíbe a aplicação do método dialético (contraposição de ideias) e hipotético-dedutivo, que contraria a liberdade de pensamento e portanto, contrária à evolução.
Considerado como um dos filósofos da ciência mais influentes do séc. XX, Karl Popper teve um papel disruptivo no método científico e consequentemente na forma de interpretar a realidade. Através da teoria do Falsificacionismo, Popper elucidou as limitações do método indutivo. Para Popper, a verificação através do método indutivo não permitiria compreender a realidade como ela realmente é, na sua totalidade:

“In so far as a scientific statement speaks about reality, it must be falsifiable; and in so far as it is not falsifiable, it does not speak about reality”
                       Karl R. Popper, The Logic of Scientific Discovery, Hutchinson, 1952, p.314.

A indução (passagem de factos reais concretos para leis, do particular para o geral), segundo Popper, origina um problema: não pode ser justificada nem de modo lógico nem por outra indução.
Segundo o filósofo austríaco, nenhum facto pode ser estabelecido como absolutamente verdadeiro, na melhor das hipóteses deverá ser considerado como nunca ter sido provado falso. Assim, um cientista não deveria procurar apenas factos que demonstrem a validade de uma determinada hipótese, mas principalmente procurar inconsistências e falhas que demonstrem de que esta poderá estar errada. Deste modo, apenas uma hipótese que resista a todas as contrariedades poderá ser validada. Karl Popper acrescenta que o facto de a indução ter sido verificada em vários casos observados até à data, não quer dizer que funcionará em todos os casos, pois, a essência da natureza científica reside na possibilidade de uma teoria assumida poder ser refutada.  A título exemplificativo de crítica ao método indutivo, Popper refere: 

“Nenhum número observado de cisnes brancos pode comprovar a teoria de que todos os cisnes são brancos, enquanto a observação de apenas um cisne negro pode refutá-la.” (Popper, 1989, p. 28, 43-44)

Este exemplo tem a sua relevância, já que a descoberta de uma raça de cisnes negros, séculos antes na Austrália – século XVIII – foi motivo de grande surpresa na altura.
Popper propõe antes que uma teoria seja apresentada como uma conjectura inicialmente não corroborada. Posteriormente, as previsões desta deverão ser comparadas com as observações efetuadas para ver se a teoria resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, mas como uma conjectura não refutada. Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, veremos que ela não precisa da indução. Segundo o filósofo, as inferências que interessam para a ciência são as refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas.

Indução vs. Dedução

Dando prioridade à hipótese científica, a metodologia de Popper não renuncia o princípio da racionalidade que se aplica às ciências naturais e sociais, nega antes o princípio de verificação e a própria concepção de progresso meramente com base no método indutivo. Popper construiu assim, a sua filosofia da ciência como uma alternativa ao empirismo lógico. A metodologia de K. Popper consiste no princípio de verificação com critérios diferentes. Uma teoria é científica se se poder traduzir dela um enunciado observável, sendo possível conduzi-la a um teste rigoroso. A ciência que se baseia na indução, é uma sequência de conjecturas, o que implica que seja impossível provar que p.e. “todos os cisnes são brancos” seja verdadeiro, pois, mais uma vez, a indução unicamente providencia conjecturas. Portanto, a ciência deverá desenvolver-se formando conjecturas que tentará em seguida refutar. Para isso, é necessário que as conjecturas sejam susceptíveis de verificação da sua falsidade, sendo submetidas a testes experimentais: 

“um sistema que faça parte da ciência empírica deve poder ser refutado pela experiência” (Popper, La Logique de la découverte scientifique, Payot, 1982, p.37). 

Karl Popper

Em suma, a ciência para ser ciência tem de ser: testável, refutável e falsificável. O futuro permanece incerto, indeterminado, impossível de prever e, se assim quisermos entender, impossível de fazer previsões “malthusianas” como“as temperaturas vão subir dois graus nos próximos 100 anos e o nível dos oceanos vai subir” ou “temos doze anos para reverter as alterações climáticas e evitar uma catástrofe” como factos consumados com fiabilidade garantida. 

Para Popper a ciência refuta e a pseudociência confirma aquilo que procura. Assim, segundo Popper, se eu quiser analisar determinados dados para chegar à conclusão de que por exemplo: a principal causa das alterações climáticas é a actividade humana ou que não é a actividade humana, isto deverá ser considerado pseudociência pois, visa confirmar o resultado  procurado apriori.

Para ilustrar este viés na confirmação de uma teoria, Popper desfere com contundência a asserção de que o Marxismo não passaria de uma teoria pseudocientífica. Esta classificação seria justificada pelo facto dos marxistas partirem das observações feitas acerca da sociedade para confirmação da validade de implementação do seu modelo de sociedade, no qual explicam que todas as desigualdades da sociedade se devem à exploração de uma classe dominante sobre a outra e que apenas a luta de classes irá resolver este problema. Preveem que as revoluções proletárias serão bem-sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. No entanto, apesar das contradições próprias do capitalismo e inerentes desigualdades, este continua a ser o sistema económico mais viável, que garante mais escalabilidade social e que ainda se encontra em vigor. 

Quando confrontados com revoluções proletárias que tenham fracassado, os correligionários do marxismo respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas em questão ainda não os enfraqueceram suficientemente ou como fomos habituados, simplesmente afirmam de forma sucinta, perentória e com a prepotência do costume: – “Isso não foi o verdadeiro comunismo”.
Noam Chomsky , a personificação viva de intelectual de esquerda, nas suas próprias palavras afasta qualquer hipótese de ligação do regime soviético aos ideais da utopia socialista:

When the world’s two great propaganda systems agree on some doctrine, it requires some intellectual effort to escape its shackles. One such doctrine is that the society created by Lenin and Trotsky and moulded further by Stalin and his successors has some relation to socialism in some meaningful or historically accurate sense of this concept. In fact, if there is a relation, it is the relation of contradiction(…)  

 

[Comsky, Noam – “The Soviet Union versus Socialism Our Generation, Spring/Summer 1986].

Seja a defesa acérrima de uma ideologia falhada como resposta a problemas estruturais de uma sociedade, a previsão de um futuro incerto tendo por base um alegado “consenso científico” que não se verificou ou a mera capacidade de questionamento e curiosidade intelectual que um investigador/cientista deve ter, o legado intelectual de Karl Popper, assente no seu cepticismo e no conhecimento hipotético dedutivo do seu Falsificacionismo, ergueu a ponte entre a sabedoria da filosofia – inerente amor pelo conhecimento – e o método apropriado para a procura incessante de conhecimento da realidade objetiva, da qual o verdadeiro cientista não desiste. Pode-se, portanto, afirmar com segurança que a filosofia de Karl Popper, constrói as bases para uma ciência séria e segura, enquanto mantêm a devida postura de humildade que um filósofo e cientista deve ter, que pode ser encapsulada na máxima do paradoxo socrático: “Só sei que nada sei”.

 

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Marco Balbi
Marco Balbi
1 mês atrás

A expressão “consenso científico” deve ser uma das mais irónicas e hipócritas actualmente, é absolutamente contraditória. O conceito de consenso contradiz objectivamente o conceito de ciência.
Mais um belíssimo artigo.